
Diante da publicação do email do acadêmico italiano Luca Bacchini, que cito em minha tese, na coluna de Arthur Xexéo [postado abaixo], escrevi uma carta de resposta e enviei para o colunista, na esperança que este venha a publicá-la na íntegra. Caso contrário, aqui está ela:
Olá Xexéo,
Quem te escreve é o Gustavo Alonso. Gostaria primeiramente de agradecer pelas matérias sobre meu livro “Simonal – Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”. Como bom leitor, você captou perfeitamente a essência do livro e conseguiu resumir perfeitamente o sentido provocativo da obra em sua coluna. Mesmo nesta última matéria, em que reproduz o email do Luca Bacchini, conseguistes em apenas um parágrafo novamente expor precisamente o sentido da obra, tirando-a de qualquer tom sensacionalista banal que Bacchini quis me colocar.
Gostaria de responder as acusações indevidas proferidas por Luca Bacchini e peço encarecidamente que estas sejam publicadas.
Para começar, Bacchini parece ser mais um (repito mais um!) dos milhares de chicólatras que não leram o livro e criticam minha obra. Junto dele estão inúmeros leitores de O Globo em seu blog que comentaram sem ler o livro. Isso é muito triste! E ainda por cima Bacchini e estes leitores leram sua coluna de forma enviesada. Comprova-se que o Brasil é um país onde não apenas lê-se pouco, mas lê-se sobretudo mal. Tudo que não agrada é visto necessariamente como agressão. Aliás, em caso recente, esse foi o argumento do cantor Roberto Carlos para censurar em 2007 a obra do historiador Paulo Cesar de Araújo, o ótimo livro Roberto Carlos em detalhes. Tristemente, pela vontade de nosso “rei”, a obra de Araújo continua censurada, causando pouco incômodo atualmente na imprensa, que parece ainda embasbacada com os festejos do “rei” e pouco disposta a problematizar sua presença na música brasileira, como fez Araújo.
Pior ainda, o espantoso é constatar que muitas vezes as censuras não emergem das vontades de nossos “reis”, mas também de toda uma corte pronta para ser mais realista que os próprios reis.
É uma pena, por isso, que Luca Bacchini caia no discurso panfletário, infantil e acusatório que une fãs de Chico Buarque e de Roberto Carlos na desqualificação de qualquer problematização de seus “heróis”. Estes mitos e seus fãs negam qualquer inteligibilidade da carreira destes artistas que não seja a adoração explícita. Parece que regredimos à época das cantoras Emilinha e Marlene, na qual as “torcidas” das “macacas de auditório” queriam dar o tom da produção crítica sobre música popular. Aliás, esta é a mesma atitude de grande parte dos fãs de Luan Santana, também agressivos contra aqueles que querem problematizar a gênese do novo ídolo sertanejo. Chico Buarque e Luan Santana no mesmo barco? Pois é, parece que os mundos da música popular não são tão distantes quanto parecem.
Bacchini fala do livro “Simonal – quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga” como se tivesse lido. Ele escreveu: “Como conhecedor dos casos e ‘causos’ brasileiros, já consigo entender lucidamente as razões, mesmo que disfarçadas, que alimentam essas tentativas”. Como conhecedor de “causos” brasileiros, parece que sobre meu livro ele está por fora.
Conheci a obra de Luca Bacchini através de um artigo intitulado “Vendesi Sovversivo: L’esilio di Chico Buarque sulla stampa italiana”, escrito em 2006, e cuja intenção do autor era vê-lo publicado na revista Letterature d’America, de Roma, em 2007, segundo consta no próprio texto. De fato, nunca obtive acesso a tese do autor, como expliquei claramente na nota de roda-pé nº 87, capítulo 7, p. 224, de meu livro. Apesar das inúmeras tentativas, parece que autor se esmerou muito em resguardá-la a sete chaves, prática infelizmente comum nas academias brasileiras e internacionais. Não obstanteo resguardo, tive acesso ao artigo mencionado, aliás muito bem escrito. Como ele mesmo fala no email encaminhado, após defender sua tese na Itália , Bacchini escreveu diversos “ensaios, artigos, [e participou de] palestras e conferências na Itália e no exterior”. Foi através de minha orientadora na época, a professora Denise Rollemberg, doutora em História pela Universidade Federal Fluminense, que obtive o texto de Bacchini. Segundo Denise me disse na época (2006), Bacchini havia entrado em contato com ela no intuito de conseguir respaldo para sua publicação no Brasil e de buscar aproximação com os intelectuais brasileiros. Eu fui um dos acadêmicos que, sem conhecê-lo pessoalmente, tive contato com sua obra.
É uma pena que Bacchini confunda a problematização da carreira do Chico com simples bravatas ou “acusações” sem sentido. Não é isso que está em jogo. O que Bacchini não compreende é que não se trata de analisar qual foi a “verdadeira verdade” sobre Chico Buarque. Interesso-me mais por entender como grande parte do seu público o viu durante sua carreira. E não foi de forma unívoca, isso eu posso garantir. Bacchini parece muito preocupado em buscar o aval do compositor para sua obra, tentando reproduzir uma versão que o próprio Chico e seus fãs têm sobre ele.
Defendi em meu livro que Chico, assim como vários outros artistas, mudou de opinião e sofreu metamorfoses ao longo da carreira. Depois do exílio italiano, e muito em função das agruras que lá viveu, Chico vestiu a camisa da resistência que, antes de 1968, teve muita dificuldade de usar. Antes de seu auto-exílio, o cantor chegou até a ser chamado de “lírico” e “alienado” por parte do público da MPB que radicalizava o discurso revolucionário. Os baianos o chamavam ironicamente de “avô” da Tropicália, tamanho o descompasso que viam entre sua obra e a do jovem Chico que parecia um novo-velho Noel Rosa. De forma que a unanimidade construída em 1966 com “A banda” foi perdida em 1968. Chico foi, por isso, vaiado (junto com o maestro Tom Jobim) quando sua “Sabiá” foi apresentada num festival em 68, vista como “alienada”, "romântica" e "lírica", incondizente com aqueles "anos rebeldes" apresentado na canção “Caminhando e cantando” de Geraldo Vandré [“Para não dizer que não falei das flores”], que o público desejava vitoriosa.
Alguns podem se perguntar: mas e “Pedro pedreiro” e “Roda Viva”, não seriam músicas críticas em que Chico já teria deixado claro sua posição?
Eu pergunto a mesma coisa, espantado. Apesar destas obras, o público ainda não havia consolidado sobre o compositor a imagem do “resistente” perfeito. Público, tropicalistas, cantores de protesto, jovem-guardistas, pilantras e os próprios ditadores o viam, hegemonicamente, como “o genro que toda sogra queria para sua filha”, como se dizia na época. Esta é minha questão: o público não comprou essa mudança na imagem do compositor, a revelia do que o Chico ou o próprio Bacchini querem ver em sua biografia. Mostro isso com diversas fontes. Está tudo no livro. Basta ler. Demonstro inclusive que o presidente Costa e Silva em 1968 declarou-se fã do compositor, assim como Jarbas Passarinho [Ministro da Educação] em 1970, vendo em sua obra um elo com a tradição sambista de Pixinguinha, Noel Rosa, Ismael Silva e Cartola. Era nessa clave que Chico era valorizado até 1968, e não como o “resistente ideal”. A mudança da imagem de Chico, e a compreensão desta mudança por parte do público/regime/artistas aconteceu apenas depois de sua volta do exílio italiano.
Bacchini não percebe essas fissuras, o que é uma pena. Talvez por ser da área de Letras, e não historiador, Bacchini buscou confirmar suas informações através de entrevistas com membros da gravadora RCA italiana, os quais “apontaram o extremo rigor moral e ético do Chico”. Se fosse historiador, Bacchini seria capaz, talvez, de problematizar o que suas fontes dizem. Todo historiador sabe que não se pode tomar uma fonte acriticamente. Nem mesmo as fontes acerca de Chico Buarque.
É claro que hoje, qualquer um vai dizer mil maravilhas sobre o compositor, livrando-o de qualquer ligação com o mercado “impuro” ou jogadas mercadológicas [como se seus discos não estivessem sendo forjados também dentro da “temida” indústria cultural]. Hoje é assim, é uma pena, perde-se a riqueza de análise em troca da louvação ao mito. Não obstante, no início dos anos 70 o compositor não era ainda o mito que se tornou, e sua imagem ainda não era intocável, de forma que ele foi criticado por parte de seu público. Alguns o viram como radical em demasia; alguns não gostaram de ver rompida a imagem idealizada; outros, como os fãs “folcloristas” do exército, se decepcionaram. Mostro a reação do público diante da metamorfose de Chico através de várias fontes. Basta ler. E nisso foi essencial o período na Itália e as próprias dificuldades que o compositor teve ao ser vendido como “cantor de protesto” na Europa.
Hoje Chico Buarque é mito, poucos ousam problematizar sua trajetória. Por isso mesmo, essa foi a proposta do livro. Não busco aval dos reis: quero “apenas” compreender melhor as ambiguidades e os paradoxos da História do Brasil e da música popular. E como personagem de nossa História, Chico pode e deve ser melhor analisado pelos historiadores, jornalistas, críticos musicais e público.
Dessa forma, é uma pena que o senhor Bacchini não se digne a ler o livro antes de criticá-lo. Se o fizesse conseguiria ver que, além de problematizar a resistência da MPB e de Chico Buarque, busquei incendiar a MPB, e não “apagar a fogueira” latente na historiografia deste gênero. E para isso consegui ver no artigo do italiano algo que o próprio parece muito receoso de defender. Novamente lamento. Bacchini poderia pelo menos perceber outras verdades do “rei”, como aquela apresentada na canção “O estrangeiro”, de Caetano Veloso: “Singelo grito/ ‘O rei está nu’/ Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu”.
Como você mesmo disse, Xexéo, corretíssimo, o livro é “polêmico da primeira à última página”. Por ser polêmico demanda discussão, e não bravatas como as proferidas por Bacchini, que, repito, não leu minha obra. Aliás, ainda estou para ver críticas de alguém que de fato leu o livro.
Caso Bacchini venha a ler “Simonal – quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga” é possível que venha a concordar com críticos importantes da nossa música popular como Paulo Cesar de Araújo, Pedro Alexandre Sanches e você próprio Arthur Xexéo, todos simpáticos entusiastas da obra, capazes de perceber que Chico Buarque não é intocável. Sua trajetória repleta de idas e vindas, reveses e metamorfoses, ajuda a entender melhor a própria história da música popular e as ambiguidades e paradoxos de nossa História nacional. E se, para sairmos do personalismo que envolve o debate sobre Simonal for necessário atingir os mitos da MPB e seus pedestais, acho válido este embate.
Mais uma vez agradeço pelo espaço e a precisão de seus argumentos no debate.
Abraços,
Gustavo Alonso
Enviada a Arthur Xexéo em 08/09/2011.
Olá Xexéo,
Quem te escreve é o Gustavo Alonso. Gostaria primeiramente de agradecer pelas matérias sobre meu livro “Simonal – Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”. Como bom leitor, você captou perfeitamente a essência do livro e conseguiu resumir perfeitamente o sentido provocativo da obra em sua coluna. Mesmo nesta última matéria, em que reproduz o email do Luca Bacchini, conseguistes em apenas um parágrafo novamente expor precisamente o sentido da obra, tirando-a de qualquer tom sensacionalista banal que Bacchini quis me colocar.
Gostaria de responder as acusações indevidas proferidas por Luca Bacchini e peço encarecidamente que estas sejam publicadas.
Para começar, Bacchini parece ser mais um (repito mais um!) dos milhares de chicólatras que não leram o livro e criticam minha obra. Junto dele estão inúmeros leitores de O Globo em seu blog que comentaram sem ler o livro. Isso é muito triste! E ainda por cima Bacchini e estes leitores leram sua coluna de forma enviesada. Comprova-se que o Brasil é um país onde não apenas lê-se pouco, mas lê-se sobretudo mal. Tudo que não agrada é visto necessariamente como agressão. Aliás, em caso recente, esse foi o argumento do cantor Roberto Carlos para censurar em 2007 a obra do historiador Paulo Cesar de Araújo, o ótimo livro Roberto Carlos em detalhes. Tristemente, pela vontade de nosso “rei”, a obra de Araújo continua censurada, causando pouco incômodo atualmente na imprensa, que parece ainda embasbacada com os festejos do “rei” e pouco disposta a problematizar sua presença na música brasileira, como fez Araújo.
Pior ainda, o espantoso é constatar que muitas vezes as censuras não emergem das vontades de nossos “reis”, mas também de toda uma corte pronta para ser mais realista que os próprios reis.
É uma pena, por isso, que Luca Bacchini caia no discurso panfletário, infantil e acusatório que une fãs de Chico Buarque e de Roberto Carlos na desqualificação de qualquer problematização de seus “heróis”. Estes mitos e seus fãs negam qualquer inteligibilidade da carreira destes artistas que não seja a adoração explícita. Parece que regredimos à época das cantoras Emilinha e Marlene, na qual as “torcidas” das “macacas de auditório” queriam dar o tom da produção crítica sobre música popular. Aliás, esta é a mesma atitude de grande parte dos fãs de Luan Santana, também agressivos contra aqueles que querem problematizar a gênese do novo ídolo sertanejo. Chico Buarque e Luan Santana no mesmo barco? Pois é, parece que os mundos da música popular não são tão distantes quanto parecem.
Bacchini fala do livro “Simonal – quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga” como se tivesse lido. Ele escreveu: “Como conhecedor dos casos e ‘causos’ brasileiros, já consigo entender lucidamente as razões, mesmo que disfarçadas, que alimentam essas tentativas”. Como conhecedor de “causos” brasileiros, parece que sobre meu livro ele está por fora.
Conheci a obra de Luca Bacchini através de um artigo intitulado “Vendesi Sovversivo: L’esilio di Chico Buarque sulla stampa italiana”, escrito em 2006, e cuja intenção do autor era vê-lo publicado na revista Letterature d’America, de Roma, em 2007, segundo consta no próprio texto. De fato, nunca obtive acesso a tese do autor, como expliquei claramente na nota de roda-pé nº 87, capítulo 7, p. 224, de meu livro. Apesar das inúmeras tentativas, parece que autor se esmerou muito em resguardá-la a sete chaves, prática infelizmente comum nas academias brasileiras e internacionais. Não obstanteo resguardo, tive acesso ao artigo mencionado, aliás muito bem escrito. Como ele mesmo fala no email encaminhado, após defender sua tese na Itália , Bacchini escreveu diversos “ensaios, artigos, [e participou de] palestras e conferências na Itália e no exterior”. Foi através de minha orientadora na época, a professora Denise Rollemberg, doutora em História pela Universidade Federal Fluminense, que obtive o texto de Bacchini. Segundo Denise me disse na época (2006), Bacchini havia entrado em contato com ela no intuito de conseguir respaldo para sua publicação no Brasil e de buscar aproximação com os intelectuais brasileiros. Eu fui um dos acadêmicos que, sem conhecê-lo pessoalmente, tive contato com sua obra.
É uma pena que Bacchini confunda a problematização da carreira do Chico com simples bravatas ou “acusações” sem sentido. Não é isso que está em jogo. O que Bacchini não compreende é que não se trata de analisar qual foi a “verdadeira verdade” sobre Chico Buarque. Interesso-me mais por entender como grande parte do seu público o viu durante sua carreira. E não foi de forma unívoca, isso eu posso garantir. Bacchini parece muito preocupado em buscar o aval do compositor para sua obra, tentando reproduzir uma versão que o próprio Chico e seus fãs têm sobre ele.
Defendi em meu livro que Chico, assim como vários outros artistas, mudou de opinião e sofreu metamorfoses ao longo da carreira. Depois do exílio italiano, e muito em função das agruras que lá viveu, Chico vestiu a camisa da resistência que, antes de 1968, teve muita dificuldade de usar. Antes de seu auto-exílio, o cantor chegou até a ser chamado de “lírico” e “alienado” por parte do público da MPB que radicalizava o discurso revolucionário. Os baianos o chamavam ironicamente de “avô” da Tropicália, tamanho o descompasso que viam entre sua obra e a do jovem Chico que parecia um novo-velho Noel Rosa. De forma que a unanimidade construída em 1966 com “A banda” foi perdida em 1968. Chico foi, por isso, vaiado (junto com o maestro Tom Jobim) quando sua “Sabiá” foi apresentada num festival em 68, vista como “alienada”, "romântica" e "lírica", incondizente com aqueles "anos rebeldes" apresentado na canção “Caminhando e cantando” de Geraldo Vandré [“Para não dizer que não falei das flores”], que o público desejava vitoriosa.
Alguns podem se perguntar: mas e “Pedro pedreiro” e “Roda Viva”, não seriam músicas críticas em que Chico já teria deixado claro sua posição?
Eu pergunto a mesma coisa, espantado. Apesar destas obras, o público ainda não havia consolidado sobre o compositor a imagem do “resistente” perfeito. Público, tropicalistas, cantores de protesto, jovem-guardistas, pilantras e os próprios ditadores o viam, hegemonicamente, como “o genro que toda sogra queria para sua filha”, como se dizia na época. Esta é minha questão: o público não comprou essa mudança na imagem do compositor, a revelia do que o Chico ou o próprio Bacchini querem ver em sua biografia. Mostro isso com diversas fontes. Está tudo no livro. Basta ler. Demonstro inclusive que o presidente Costa e Silva em 1968 declarou-se fã do compositor, assim como Jarbas Passarinho [Ministro da Educação] em 1970, vendo em sua obra um elo com a tradição sambista de Pixinguinha, Noel Rosa, Ismael Silva e Cartola. Era nessa clave que Chico era valorizado até 1968, e não como o “resistente ideal”. A mudança da imagem de Chico, e a compreensão desta mudança por parte do público/regime/artistas aconteceu apenas depois de sua volta do exílio italiano.
Bacchini não percebe essas fissuras, o que é uma pena. Talvez por ser da área de Letras, e não historiador, Bacchini buscou confirmar suas informações através de entrevistas com membros da gravadora RCA italiana, os quais “apontaram o extremo rigor moral e ético do Chico”. Se fosse historiador, Bacchini seria capaz, talvez, de problematizar o que suas fontes dizem. Todo historiador sabe que não se pode tomar uma fonte acriticamente. Nem mesmo as fontes acerca de Chico Buarque.
É claro que hoje, qualquer um vai dizer mil maravilhas sobre o compositor, livrando-o de qualquer ligação com o mercado “impuro” ou jogadas mercadológicas [como se seus discos não estivessem sendo forjados também dentro da “temida” indústria cultural]. Hoje é assim, é uma pena, perde-se a riqueza de análise em troca da louvação ao mito. Não obstante, no início dos anos 70 o compositor não era ainda o mito que se tornou, e sua imagem ainda não era intocável, de forma que ele foi criticado por parte de seu público. Alguns o viram como radical em demasia; alguns não gostaram de ver rompida a imagem idealizada; outros, como os fãs “folcloristas” do exército, se decepcionaram. Mostro a reação do público diante da metamorfose de Chico através de várias fontes. Basta ler. E nisso foi essencial o período na Itália e as próprias dificuldades que o compositor teve ao ser vendido como “cantor de protesto” na Europa.
Hoje Chico Buarque é mito, poucos ousam problematizar sua trajetória. Por isso mesmo, essa foi a proposta do livro. Não busco aval dos reis: quero “apenas” compreender melhor as ambiguidades e os paradoxos da História do Brasil e da música popular. E como personagem de nossa História, Chico pode e deve ser melhor analisado pelos historiadores, jornalistas, críticos musicais e público.
Dessa forma, é uma pena que o senhor Bacchini não se digne a ler o livro antes de criticá-lo. Se o fizesse conseguiria ver que, além de problematizar a resistência da MPB e de Chico Buarque, busquei incendiar a MPB, e não “apagar a fogueira” latente na historiografia deste gênero. E para isso consegui ver no artigo do italiano algo que o próprio parece muito receoso de defender. Novamente lamento. Bacchini poderia pelo menos perceber outras verdades do “rei”, como aquela apresentada na canção “O estrangeiro”, de Caetano Veloso: “Singelo grito/ ‘O rei está nu’/ Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu”.
Como você mesmo disse, Xexéo, corretíssimo, o livro é “polêmico da primeira à última página”. Por ser polêmico demanda discussão, e não bravatas como as proferidas por Bacchini, que, repito, não leu minha obra. Aliás, ainda estou para ver críticas de alguém que de fato leu o livro.
Caso Bacchini venha a ler “Simonal – quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga” é possível que venha a concordar com críticos importantes da nossa música popular como Paulo Cesar de Araújo, Pedro Alexandre Sanches e você próprio Arthur Xexéo, todos simpáticos entusiastas da obra, capazes de perceber que Chico Buarque não é intocável. Sua trajetória repleta de idas e vindas, reveses e metamorfoses, ajuda a entender melhor a própria história da música popular e as ambiguidades e paradoxos de nossa História nacional. E se, para sairmos do personalismo que envolve o debate sobre Simonal for necessário atingir os mitos da MPB e seus pedestais, acho válido este embate.
Mais uma vez agradeço pelo espaço e a precisão de seus argumentos no debate.
Abraços,
Gustavo Alonso
Enviada a Arthur Xexéo em 08/09/2011.








