quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Mantendo a fogueira acesa...



Diante da publicação do email do acadêmico italiano Luca Bacchini, que cito em minha tese, na coluna de Arthur Xexéo [postado abaixo], escrevi uma carta de resposta e enviei para o colunista, na esperança que este venha a publicá-la na íntegra. Caso contrário, aqui está ela:

Olá Xexéo,

Quem te escreve é o Gustavo Alonso. Gostaria primeiramente de agradecer pelas matérias sobre meu livro “Simonal – Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”. Como bom leitor, você captou perfeitamente a essência do livro e conseguiu resumir perfeitamente o sentido provocativo da obra em sua coluna. Mesmo nesta última matéria, em que reproduz o email do Luca Bacchini, conseguistes em apenas um parágrafo novamente expor precisamente o sentido da obra, tirando-a de qualquer tom sensacionalista banal que Bacchini quis me colocar.

Gostaria de responder as acusações indevidas proferidas por Luca Bacchini e peço encarecidamente que estas sejam publicadas.

Para começar, Bacchini parece ser mais um (repito mais um!) dos milhares de chicólatras que não leram o livro e criticam minha obra. Junto dele estão inúmeros leitores de O Globo em seu blog que comentaram sem ler o livro. Isso é muito triste! E ainda por cima Bacchini e estes leitores leram sua coluna de forma enviesada. Comprova-se que o Brasil é um país onde não apenas lê-se pouco, mas lê-se sobretudo mal. Tudo que não agrada é visto necessariamente como agressão. Aliás, em caso recente, esse foi o argumento do cantor Roberto Carlos para censurar em 2007 a obra do historiador Paulo Cesar de Araújo, o ótimo livro Roberto Carlos em detalhes. Tristemente, pela vontade de nosso “rei”, a obra de Araújo continua censurada, causando pouco incômodo atualmente na imprensa, que parece ainda embasbacada com os festejos do “rei” e pouco disposta a problematizar sua presença na música brasileira, como fez Araújo.

Pior ainda, o espantoso é constatar que muitas vezes as censuras não emergem das vontades de nossos “reis”, mas também de toda uma corte pronta para ser mais realista que os próprios reis.

É uma pena, por isso, que Luca Bacchini caia no discurso panfletário, infantil e acusatório que une fãs de Chico Buarque e de Roberto Carlos na desqualificação de qualquer problematização de seus “heróis”. Estes mitos e seus fãs negam qualquer inteligibilidade da carreira destes artistas que não seja a adoração explícita. Parece que regredimos à época das cantoras Emilinha e Marlene, na qual as “torcidas” das “macacas de auditório” queriam dar o tom da produção crítica sobre música popular. Aliás, esta é a mesma atitude de grande parte dos fãs de Luan Santana, também agressivos contra aqueles que querem problematizar a gênese do novo ídolo sertanejo. Chico Buarque e Luan Santana no mesmo barco? Pois é, parece que os mundos da música popular não são tão distantes quanto parecem.

Bacchini fala do livro “Simonal – quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga” como se tivesse lido. Ele escreveu: “Como conhecedor dos casos e ‘causos’ brasileiros, já consigo entender lucidamente as razões, mesmo que disfarçadas, que alimentam essas tentativas”. Como conhecedor de “causos” brasileiros, parece que sobre meu livro ele está por fora.

Conheci a obra de Luca Bacchini através de um artigo intitulado “Vendesi Sovversivo: L’esilio di Chico Buarque sulla stampa italiana”, escrito em 2006, e cuja intenção do autor era vê-lo publicado na revista Letterature d’America, de Roma, em 2007, segundo consta no próprio texto. De fato, nunca obtive acesso a tese do autor, como expliquei claramente na nota de roda-pé nº 87, capítulo 7, p. 224, de meu livro. Apesar das inúmeras tentativas, parece que autor se esmerou muito em resguardá-la a sete chaves, prática infelizmente comum nas academias brasileiras e internacionais. Não obstanteo resguardo, tive acesso ao artigo mencionado, aliás muito bem escrito. Como ele mesmo fala no email encaminhado, após defender sua tese na Itália , Bacchini escreveu diversos “ensaios, artigos, [e participou de] palestras e conferências na Itália e no exterior”. Foi através de minha orientadora na época, a professora Denise Rollemberg, doutora em História pela Universidade Federal Fluminense, que obtive o texto de Bacchini. Segundo Denise me disse na época (2006), Bacchini havia entrado em contato com ela no intuito de conseguir respaldo para sua publicação no Brasil e de buscar aproximação com os intelectuais brasileiros. Eu fui um dos acadêmicos que, sem conhecê-lo pessoalmente, tive contato com sua obra.

É uma pena que Bacchini confunda a problematização da carreira do Chico com simples bravatas ou “acusações” sem sentido. Não é isso que está em jogo. O que Bacchini não compreende é que não se trata de analisar qual foi a “verdadeira verdade” sobre Chico Buarque. Interesso-me mais por entender como grande parte do seu público o viu durante sua carreira. E não foi de forma unívoca, isso eu posso garantir. Bacchini parece muito preocupado em buscar o aval do compositor para sua obra, tentando reproduzir uma versão que o próprio Chico e seus fãs têm sobre ele.

Defendi em meu livro que Chico, assim como vários outros artistas, mudou de opinião e sofreu metamorfoses ao longo da carreira. Depois do exílio italiano, e muito em função das agruras que lá viveu, Chico vestiu a camisa da resistência que, antes de 1968, teve muita dificuldade de usar. Antes de seu auto-exílio, o cantor chegou até a ser chamado de “lírico” e “alienado” por parte do público da MPB que radicalizava o discurso revolucionário. Os baianos o chamavam ironicamente de “avô” da Tropicália, tamanho o descompasso que viam entre sua obra e a do jovem Chico que parecia um novo-velho Noel Rosa. De forma que a unanimidade construída em 1966 com “A banda” foi perdida em 1968. Chico foi, por isso, vaiado (junto com o maestro Tom Jobim) quando sua “Sabiá” foi apresentada num festival em 68, vista como “alienada”, "romântica" e "lírica", incondizente com aqueles "anos rebeldes" apresentado na canção “Caminhando e cantando” de Geraldo Vandré [“Para não dizer que não falei das flores”], que o público desejava vitoriosa.

Alguns podem se perguntar: mas e “Pedro pedreiro” e “Roda Viva”, não seriam músicas críticas em que Chico já teria deixado claro sua posição?

Eu pergunto a mesma coisa, espantado. Apesar destas obras, o público ainda não havia consolidado sobre o compositor a imagem do “resistente” perfeito. Público, tropicalistas, cantores de protesto, jovem-guardistas, pilantras e os próprios ditadores o viam, hegemonicamente, como “o genro que toda sogra queria para sua filha”, como se dizia na época. Esta é minha questão: o público não comprou essa mudança na imagem do compositor, a revelia do que o Chico ou o próprio Bacchini querem ver em sua biografia. Mostro isso com diversas fontes. Está tudo no livro. Basta ler. Demonstro inclusive que o presidente Costa e Silva em 1968 declarou-se fã do compositor, assim como Jarbas Passarinho [Ministro da Educação] em 1970, vendo em sua obra um elo com a tradição sambista de Pixinguinha, Noel Rosa, Ismael Silva e Cartola. Era nessa clave que Chico era valorizado até 1968, e não como o “resistente ideal”. A mudança da imagem de Chico, e a compreensão desta mudança por parte do público/regime/artistas aconteceu apenas depois de sua volta do exílio italiano.

Bacchini não percebe essas fissuras, o que é uma pena. Talvez por ser da área de Letras, e não historiador, Bacchini buscou confirmar suas informações através de entrevistas com membros da gravadora RCA italiana, os quais “apontaram o extremo rigor moral e ético do Chico”. Se fosse historiador, Bacchini seria capaz, talvez, de problematizar o que suas fontes dizem. Todo historiador sabe que não se pode tomar uma fonte acriticamente. Nem mesmo as fontes acerca de Chico Buarque.

É claro que hoje, qualquer um vai dizer mil maravilhas sobre o compositor, livrando-o de qualquer ligação com o mercado “impuro” ou jogadas mercadológicas [como se seus discos não estivessem sendo forjados também dentro da “temida” indústria cultural]. Hoje é assim, é uma pena, perde-se a riqueza de análise em troca da louvação ao mito. Não obstante, no início dos anos 70 o compositor não era ainda o mito que se tornou, e sua imagem ainda não era intocável, de forma que ele foi criticado por parte de seu público. Alguns o viram como radical em demasia; alguns não gostaram de ver rompida a imagem idealizada; outros, como os fãs “folcloristas” do exército, se decepcionaram. Mostro a reação do público diante da metamorfose de Chico através de várias fontes. Basta ler. E nisso foi essencial o período na Itália e as próprias dificuldades que o compositor teve ao ser vendido como “cantor de protesto” na Europa.

Hoje Chico Buarque é mito, poucos ousam problematizar sua trajetória. Por isso mesmo, essa foi a proposta do livro. Não busco aval dos reis: quero “apenas” compreender melhor as ambiguidades e os paradoxos da História do Brasil e da música popular. E como personagem de nossa História, Chico pode e deve ser melhor analisado pelos historiadores, jornalistas, críticos musicais e público.

Dessa forma, é uma pena que o senhor Bacchini não se digne a ler o livro antes de criticá-lo. Se o fizesse conseguiria ver que, além de problematizar a resistência da MPB e de Chico Buarque, busquei incendiar a MPB, e não “apagar a fogueira” latente na historiografia deste gênero. E para isso consegui ver no artigo do italiano algo que o próprio parece muito receoso de defender. Novamente lamento. Bacchini poderia pelo menos perceber outras verdades do “rei”, como aquela apresentada na canção “O estrangeiro”, de Caetano Veloso: “Singelo grito/ ‘O rei está nu’/ Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nu”.

Como você mesmo disse, Xexéo, corretíssimo, o livro é “polêmico da primeira à última página”. Por ser polêmico demanda discussão, e não bravatas como as proferidas por Bacchini, que, repito, não leu minha obra. Aliás, ainda estou para ver críticas de alguém que de fato leu o livro.

Caso Bacchini venha a ler “Simonal – quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga” é possível que venha a concordar com críticos importantes da nossa música popular como Paulo Cesar de Araújo, Pedro Alexandre Sanches e você próprio Arthur Xexéo, todos simpáticos entusiastas da obra, capazes de perceber que Chico Buarque não é intocável. Sua trajetória repleta de idas e vindas, reveses e metamorfoses, ajuda a entender melhor a própria história da música popular e as ambiguidades e paradoxos de nossa História nacional. E se, para sairmos do personalismo que envolve o debate sobre Simonal for necessário atingir os mitos da MPB e seus pedestais, acho válido este embate.

Mais uma vez agradeço pelo espaço e a precisão de seus argumentos no debate.

Abraços,

Gustavo Alonso

Enviada a Arthur Xexéo em 08/09/2011.

Apagando a fogueira da MPB



Há um mês, escrevi sobre o livro “Wilson Simonal — Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”, de Gustavo Alonso, lançamento da Editora Record. Polêmico, o livro debruça-se sobre uma período da MPB, os anos 60, em que seus artífices dividiam-se entre “adesistas” e “resistentes”. Reproduzo aqui parte do texto de um mês atrás: “(...) a imagem de Chico (Buarque) só se transformou após o que (o autor) chama de ‘breve’ exílio do artista na Itália. Baseado em tese ainda não publicada do historiador italiano Luca Bacchini, o livro é contundente: ‘Sabendo da sede da juventude italiana pelos mitos da América Latina, especialmente Che Guevara, a RCA (gravadora italiana) criou uma campanha publicitária que colocava Chico Buarque vítima da ditadura. Passou-se a vender a ideia de que ele era um exilado político, cantor de protesto expulso do país. Paradoxalmente, foi na Itália que Chico tornou-se o resistente ideal.’”

Parece que há um mal entendido quanto à participação de Luca Bacchini nessa história. É ele quem esclarece por e-mail enviado à coluna. Para começar, Bacchini não é historiador, mas professor de literatura portuguesa e brasileira. Deixemos que ele mesmo fale:

“Da leitura da sua coluna aprendo que o pesquisador Gustavo Alonso baseou uma parte do próprio estudo sobre a minha ‘tese ainda não publicada’. Isso é totalmente falso pois Gustavo Alonso nunca teve acesso — direto ou indireto — à minha tese sobre Chico Buarque e a Itália. Ela vai sair em livro só no ano que vem. Neste momento, alguns capítulos ainda estão em fase de elaboração. Mas, claro, há pessoas dotadas de surpreendentes capacidades divinatórias que seria arriscado subestimar. Mesmo avaliando esse fator, e ao custo de pecar por presunção, queria deixar claro que discordo completamente de qualquer tipo de interpretação revisionista-sensacionalista da obra e da carreira de Chico Buarque, assim como daquela que, indiretamente, me foi atribuída na sua coluna. Ciclicamente acontece de Chico Buarque ser alvo de ataques ideológicos de vários tipos. Como pesquisador, isso me surpreende, especialmente naquelas raras ocasiões que essas cruzadas encontram aliados no ambiente acadêmico e cultural. Como conhecedor dos casos e ‘causos’ brasileiros, já consigo entender lucidamente as razões, mesmo que disfarçadas, que alimentam essas tentativas. Todavia não me conformo e, visto que fui chamado em causa, achei oportuno replicar e tomar as devidas distâncias.

Faz sete anos que pesquiso o período que Chico Buarque passou na Itália durante a ditadura militar, e é lamentável descobrir que o meu trabalho foi manipulado e distorcido dessa forma até antes de ser lido e divulgado. Queria deixar claro que a hipótese de Chico Buarque ter sido direta ou indiretamente um ‘adesista’ do regime militar é para mim tão absurda e infundada quanto a ideia que Gustavo Alonso teve acesso à minha tese. Em nenhum dos ensaios, artigos, palestras e conferências que na Itália e no exterior até hoje dediquei à obra do Chico Buarque nunca propus uma interpretação desse tipo ou de longe similar.
Quanto à estratégia de marketing da RCA, vale a pena sublinhar que a escolha de apresentar Chico como vítima da ditadura marcou apenas uma fase, aquela inicial, de uma campanha publicitária muito complexa. Contudo, uma campanha publicitária não pode ser assumida como única testemunha fiel e legítima de um inteiro processo histórico. Ela é apenas um elemento de um mosaico rico e variado. Aliás, seria errado pensar que a estratégia de marketing da gravadora seja reveladora da posição do próprio artista. Como emerge claramente da minha tese, Chico Buarque na Itália sempre se recusou a vestir a camisa de mártir da ditadura sem se importar com o prejuízo que isso causava à própria carreira artística e à gravadora. Tal informação foi-me confirmada por depoimentos exclusivos de vários testemunhos, inclusive dos dirigentes e funcionários da RCA da época. Todos os entrevistados apontaram o extremo rigor moral e ético do Chico como um dos principais obstáculos que impediram a construção de uma campanha publicitária de sucesso no mercado discográfico italiano.”

Só para esclarecer mais um pouco. A questão Chico Buarque não é a mais importante do livro de Gustavo Alonso. A referência a Luca Bacchini é apenas uma nota de pé de página. O autor também não classifica Chico Buarque como “adesista do regime militar”. Alonso apenas constata que a imagem de “resistente” do artista consolidou-se após seu exílio na Itália. Mas este é apenas um dos muitos casos estudados no livro. Eu o pesquei por perceber que era polêmico e considerar que ilustraria adequadamente um livro que é polêmico da primeira à última página.

Fonte: COLUNA DO SEGUNDO CADERNO (07/09/2011)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Arthur Xexéo escreve sobre o livro em O Globo

Pilantragem, o gênero que a MPB esqueceu
Por Arthur Xexéo


A capa do livro não me entusiasmou: uma foto de Wilson Simonal, usando a bandana tradicional que caracterizava seu figurino, sobre o título “Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga”. Minha interpretação foi rápida: lá vem mais uma obra tentando recuperar a importãncia de Simonal na música brasileira. Resisti à implicância e abri o livro. Me dei bem. O trabalho do historiador Gustavo Alonso, que a editora Record está mandando este mês para as livrarias, pretende mesmo entender o ostracismo a que Simonal foi relegado e recuperar sua importância, mas de uma maneira original, talvez da maneira mais original entre as que foram tentadas até agora.



O livro empreende uma viagem aos anos 60, período em que a música brasileira fazia parte da luta política travada no país. Para começar, Alonso recupera um gênero que, até gora, nem mesmo era considerado um gênero: a Pilantragem. “O conceito MPB foi forjado por meio da luta contra a ditadura, ecoando e catalisando a construção de uma memória de resistência que a própria sociedade vinha criando para si mesma”, escreve o autor, para explicar as canções de Bethãnias e Vandrés, consideradas a única coisa importante que era composta na época. “A História da MPB sempre foi privilegiada por pesquisadores, escritores, acadêmicos e jornalistas, muito mais do que qualquer outro gênero musical. É comum que artistas não identificados a este gênero estético-político sejam associados à baixa qualidade estética e à ‘alienação’ política.”

Então é isso. Muito antes de o nome de Simonal ser associado à imagem de dedo-duro a partir de a seu polêmico envolvimento na detenção ilegal de seu contador, como está mais do que explicado no documentário “Simonal — Ninguém sabe o duro que dei”, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, o cantor já era associado à baixa qualidade, um alienado, um adesista e, portanto, não merecia fazer parte da História da nossa música.
“Certos artistas são silenciados pela memória hegemônica em nome de um conceito estético e político, apagando-se a vivência afetiva de milhões de brasileiros”, escreve Alonso, me fazendo lembrar que, lá em casa, a vitrola não parava de tocar Simonal, a Turma da Pilantragem, Regininha, Antônio Adolfo e A Brazuca, Turma da Pesada e uma certa fase de Marcos e Paulo Sérgio Valle. Por que nunca se fala deles quando se escreve sobre a música dos anos 60? É o que o livro de Gustavo Alonso explica.
Para ser mais polêmico, o autor é definitivo: a Pilantragem, um projeto estético da década de 60, inventado por Simonal, Carlos Imperial e Nonato Buzar, “buscava, como o Tropicalismo, fundir o que vinha ‘de fora’ com as tradições de ‘de dentro’. (...) Assim como a bossa nova teve em Tom Jobim o ‘maestro soberano’, a Pilantragem também teve seu cérebro musical: Cesar Camargo Mariano. Muito antes de ser conhecido e reconhecido pelos arranjos para Elis Regina na década de 70, ele já era um dos grandes responsáveis pelo movimento da Pilantragem, criando levadas inovadoras e sacudindo todo mundo com suingues dançantes através do instinto e da sensibilidade de Simonal.” Aí já há combustível suficiente para uma explosão e tanto nas entranhas da MPB, mas o livro é muito, muito mais inflamável.

A trajetória De Simonal é muitas vezes abandonada para o autor se debruçar sobre o tempo em que a música brasileira se dividia entre resistentes e adesistas. Um tempo de passeatas contra guitarras elétricas, do papel do jornal “O Pasquim” em determinar quem merecia ser ouvido (os resistentes) e quem não (os adesistas), da intolerância que quase acabou com a carreira de Ivan Lins, do preconceito que acabou com a carreira de Erlon Chaves... O livro traz ainda uma tese nova que promete reacender o velho debate: a transposição da imagem de Chico Buarque de adesista à resistente.
“A imagem do artista hoje é a do resistente ideal, louvado pela postura combativa e aguerrida na luta cultural contra o regime”, escreve Alonso. “No início da carreira, muitos tiveram dificuldades em associá-lo à luta contra a ditadura, pois ele quase sempre preferia compor temas lírico-amorosos e ‘alienados’.’’ O autor lembra que “Carolina”, de Chico, fez parte do repertório de Agnaldo Rayol no disco “As minhas preferidas”, uma seleção de canções “preferidas” do presidente Costa e Silva. E que a imagem de Chico só se transformou após o que ele chama de “breve” exílio do artista na Itália. Baseado em tese ainda não publicada do historiador italiano Luca Bacchini, o ivro é contundente: “Sabendo da sede da juventude italiana pelos mitos da América Latina, especialmente Che Guevara, a RCA (gravadora italiana) criou uma campanha publicitária que colocava Chico Buarque vítima da ditadura. Passou-se a vender a ideia de que ele era um exilado político, cantor de protesto expulso do país. Paradoxalmente, foi na Itália que Chico tornou-se o resistente ideal.

É lenha na fogueira da MPB. E bem que a MPB está precisando.

Fonte: COLUNA DO SEGUNDO CADERNO, O Globo (03/08/2011): Link aqui

O que a imprensa anda falando sobre o livro:


"O trabalho de Gustavo Alonso pretende entender o ostracismo a que Simonal foi relegado e recuperar sua importância, mas de uma maneira original, talvez da maneira mais original entre as que foram tentadas até agora. "Simonal: quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga" é um livro inflamável. Há combustível suficiente para uma explosão e tanto nas entranhas da MPB. É lenha na fogueira da MPB. E bem que a MPB está precisando."

Arthur Xexéo, O Globo, 03/08/2011


"A reabilitação de Simonal não conseguiu dar conta de todas as ambiguidades do personagem e de sua problemática existência no campo da MPB dos anos 1960 e 1970. Este livro vai além dos limites de uma biografia tradicional: explora como a sociedade e, especialmente, o meio musical atravessaram a corda bamba do protesto e da adesão ao regime militar. A obra interessa não só aos apaixonados por nossa cultura, mas também aos que se deixam atrair pelo enigma de como as sociedades eternizam ou matam seus ídolos".

Paulo Cesar de Araújo, autor dos livros "Eu não sou cachorro, não" e "Roberto Carlos em detalhes"


"Eis o ovo da serpente cutucado pelo historiador Gustavo Alonso. Esmiuçando inúmeros exemplos, Gustavo dá margem à compreensão de que, numa sociedade muito mais complexa que o bangue-bangue hollywoodiano maniqueista que divide o mundo em 'bons' e 'maus', quem lutou contra a ditadura pode ter igualmente colaborado com ela, e vice-versa. Quem sofre espeicalmente nas mãos do autor é Chico Buarque, herói máximo das esquerdas dos anos 1970 e figura que, afinal, acumulou prestígio, fama e fortuna à custa da luta simbólica diuturna contra os mandos e desmandos dos generais instalados em Brasilía. (...) Você já havia ouvido falar em algum outro lugar sobre esse perturbador redesenho histórico proposto em livro por Gustavo Alonso?"

Pedro Alexandre Sanches, Rev. Caros Amigos, jun. 2011


"Este livro nasceu da dissertação de mestrado defendida pelo autor, o historiador Gustavo Alves Alonso Ferreira, na Universidade Federal Fluminense, em 2007. E por isso se mostra uma obra bastante completa quanto à pesquisa e apuração dos fatos que permeiam a vida e obra do redescoberto Wilson Simonal".

Revista Rolling Stone, julho de 2011


"O grande problema da análise da MPB no período – que acomete a Internet, nas disputas ideológicas – é se tomar a parte pelo todo. A parte era um mundo pequeno, composto de críticos, músicos e um público restrito. (...)
Como constata Alonso, a maioria da população apoiava a ditadura."

Luis Nassif

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Lançamento do livro!


Lançamento de meu livro "Simonal: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga", dia 24/08, às 19hs, na livraria Blooks, do Unibanco Arteplex, Praia de Botafogo Botafogo 316, Rio de Janeiro.

link do livro no site da editora Record, aqui.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Revista Rolling Stone

Simonal - Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga
Autor: Gustavo Alves Alonso Ferreira
Editora: Record

O apogeu, queda e ostracismo do rei da pilantragem em obra acadêmica

Este livro nasceu da dissertação de mestrado defendida pelo autor, o historiador Gustavo Alves Alonso Ferreira, na Universidade Federal Fluminense, em 2007. E por isso se mostra uma obra bastante completa quanto à pesquisa e apuração dos fatos que permeiam a vida e obra do redescoberto Wilson Simonal (1938-2000). Além do vasto uso de arquivo de jornais e revistas, Gustavo também colheu depoimentos de artistas como Caetano Veloso, Gerson King Combo e do crítico Zuza Homem de Mello. Os capítulos analisam com detalhes episódios como o show de Simonal no Maracanãzinho, o desprezo de grandes artistas da MPB em relação à sua obra, as críticas da esquerda contra seu som “alienado“ e o desentendimento com o seu contador, Raphael Viviani, que foi o gancho para seu ostracismo. Ao final da obra, anexos importantes: a entrevista de Simonal ao Pasquim, uma das publicações que mais crucificaram o cantor, publicada em 1969, os depoimentos e declarações de Simonal e do contador à Justiça e ainda a sentença final sobre o caso, proferida em 1974.

4/5 estrelas, por Marcos Lauro

Fonte: http://www.rollingstone.com.br/guia/livros/5045/

Todo Dia On Line

Livro polemiza relação da MPB com a ditadura militar

Publicado em 01 de julho de 2011 2 comentários
Fonte: http://tododiaonline.com.br/livro-polemiza-relacao-da-mpb-com-a-ditadura-militar/

GILMAR EITELWEIN - O historiador Gustavo Alonso está lançando um livro que promete polemizar o tema da arte e cultura em tempos de ditadura no Brasil. Disposto a desfazer alguns mitos e imagens criadas a partir da postura de vários artistas no embate contra o arbítrio, compõe algumas teses que confrontam principalmente teóricos da esquerda. O livro chama-se Simonal – quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga.

Desdobramento da dissertação de mestrado que Gustavo apresentou em 2007 à Universidade Federal Fluminense (UFF), ele está sendo lançado pela editora Record três anos após sua conclusão e simultaneamente a outra dissertação do autor, desta vez de doutorado, também focado no meio artístico-musical: Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira.

O recorte de Gustavo se estende à própria ditadura de 1964. Simonal é foco da análise ao lado de outro autor fundamental para entender as relações da arte com a política: Chico Buarque de Hollanda. Despreocupado em culpabilizar ou inocentar Simonal das acusações de deduragem que a partir de 1971 dizimaram uma carreira até então gloriosa, o historiador quer mostrar que Simonal era um apoiador da ditadura, sim, mas estava longe de ser o único. Invertendo o ponto de vista habitual, encaixa seu personagem à evidência de que o arbítrio existiu não devido à passividade e apatia da sociedade brasileira, mas porque a maioria dessa sociedade o apoiou, legitimou e aplaudiu.

Em matéria publicada nesta sexta-feira (1/7) no jornal Folha de São Paulo, e assinada por Pedro Alexandre Sanchez, o historiador defende que memórias como a de um Chico Buarque heroico, defensor de todos contra os militares, seriam uma construção (ou distorção) posterior, assim como a de um Wilson Simonal maquiavélico e solitário na defesa de um regime, contra todo um país de vítimas 100% inocentes.

Esquerda-direita – Na entrevista, onde Gustavo Alonso se define de esquerda, mas busca distorcer e até renegar um pouco os compartimentos ideológicos presentes, ele afirma que em toda esta discussão sempre preferiu o Tropicalismo, “à medida em que ele é e não é a esquerda, e é e não é a direita”. Nascido em 1980, confessa que não viveu o período autoritário, sequer o movimento dos festivais dos anos 60.

Para ele, Simonal era um cara que, como a maior parte da sociedade brasileira, “estava vivendo a ditadura como uma solução, e não como uma coisa a ser combatida. Vivia como expressão dos seus próprios desejos, autoritários, sim, antidemocráticos, sim, desenvolvimentistas e economicistas, sim”. Sobre a possibilidade de um artista ingênuo, ele desfigura; Simonal não era ingênuo em nenhum momento.

“Além de transformá-lo em vítima, o transformam em vítima como se fosse apolítico, como se não se envolvesse nas discussões. Pelo contrário, estava sempre afirmando coisas, dizendo. Uma parte da academia tem essa ideia de que as pessoas eram caladas, reprimidas, que se tivessem o direito de falar falariam contra a ditadura. Mas o que a gente vê na música mais popular é que eles estão performando o regime, mais do que estão compactuando. É o regime que compactua com eles, é legal inverter”.

Gelatina – O autor faz uma comparação com Pelé.

“É a mesma situação, mas o Pelé é mais gelatina. Roberto Carlos sempre foi gelatina, sempre fugiu dessas discussões. Simonal é o contrário do Roberto nesse sentido. Ele metia o dedo, era chato, provocante, irônico, debochado. Tanto é que o tom do escárnio que se tinha com Simonal depois da queda é muito parecido com o tom que Simonal tinha antes com as esquerdas louvadoras do samba. O maior problema é que inocentar o Simonal é continuar vendo o problema pela metade. É mais que isso, é tentar reintegrá-lo ao padrão da MPB sem problematizar a ditadura na MPB”.

Para o autor, Simonal “era Roberto Carlos com Jorge Ben e com Chacrinha, os três juntos, os três mitos dos anos 1960 para o tropicalismo, reunidos na mesma pessoa”. Então, questiona, por que o tropicalismo não o incorporou? “É a mesma questão que levanto pro Chico. Até a volta do exílio a memória que se tinha dele era do cara muito bom por fazer músicas tradicionais, “o novo Noel Rosa”. Esteticamente ele sempre foi visto como um grande cara, desde o começo, eu não negaria isso, mas politicamente ele não era visto como combativo. Chico era feito não só pelas esquerdas no início dos anos 1970. Volta e meia era incorporado pela direita, Jarbas Passarinho gostava dele. Chico agradava uma determinada direita folclorista”.

Muitas afirmações polêmicas saem da boca de Alonso. A menos delas é reconhecer que, mesmo jovem e não tendo vivido a época, a ditadura brasileira era uma ditadura civil-militar.

“Essa imagem dos militares como salvadores da pátria não foi forjada ali, vem desde a Guerra do Paraguai, nos vários golpes preventivos que os militares deram no século XX, todos dentro desse imaginário do exército como representação da sociedade”, diz. “Não tenho nenhum apego ao exército, mas a sociedade se vê representada nele. É o Bope. Então havia os resistentes, que eram pouquíssimos, e do outro lado as velhas senhoras que apoiavam o regime, o CCC, a Tradição, Família e Propriedade? Não é bem assim. O apoio ao regime era muito maior que esses espectros tradicionalmente conservadores”.

Veja Rio, 20/07/2011

Coluna Memória da Cidade
por Lula Branco Martins

O cantor Wilson Simonal sempre comandou a massa com charme, bossa e muitas gírias. Em 1971, porém, caiu em desgraça depois que a esquerda, raivosa com a acusação de que ele supostamente estaria ligado a órgãos da repressão, o colocou em total ostracismo. Em 2009, biografia e filme revisitaram o líder da Pilantragem, movimento musical que em 1969 fez vibrar o Maracanãzinho. Um novo livro sobre o artista, Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga, será lançado pela Record no fim do mês. "Se vários nomes da MPB também bajularam a ditadura, por que para Simona não houve perdão?", pergunta Gustavo Alonso, autor da obra. Na foto, o astro carioca brinca com o boneco Mug, ícone dos anos 60.

Fontes: http://vejario.abril.com.br/edicao-da-semana/vejarj-2226-historias-cariocas-633712.shtml

Crítica da entrevista na Fórum pelo jornalista Luis Nassif

A MPB nos tempos da ditadura
por Luis Nassif

Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-mpb-nos-tempos-da-ditadura-0

Acompanhei de perto esse período mencionado pelo historiador Gustavo Alonso – que na entrevista a Pedro Alexandre Sanches, na revista Fórum (abaixo) analisa a politização da música brasileira no período da ditadura. Aliás, desisti de ser crítico de música da Veja, aos 24 anos, devido ao terrível patrulhamento que permeava o setor – como uma compensação pelo fato de pouco se poder falar contra a ditadura na política e na economia.

Criou-se um clima terrível, no qual as maiores vítimas eram os músicos, tanto os amaldiçoados, como Simonal, como os medalhões, como Chico e Caetano.

Jamais Chico ou Caetano se arvoraram em líderes contra a ditadura. Sempre foram suficientemente inteligentes para perceber seus limites políticos. Preocupavam-se em exercitar sua arte e a reagir aos esbirros da censura. E jamais Chico Buarque se outorgou o papel de símbolo. Sua estatura moral decorreu da sua música, do seu caráter, de nunca ter se metido em quizílias, em jogadas oportunistas. Geraldo Vandré foi o único compositor de peso no período a pretender um ativismo um pouco além da música - mas sempre usando a música como arma.

O grande problema é que a MPB, apesar de um público universitário amplo, era muito pequena para exercer qualquer papel político significativo. Vinha de uma certa tradição latino-americana erigir músicos em líderes populares – Violeta Parra, por exemplo. Como era um dos poucos setores com espaço na mídia, foi o próprio jornalismo cultural – e o Pasquim – que tentou transformar músicos em heróis ou vilões. E, obviamente, a enorme burrice dos censores, procurando pelo em ovo – eu, insignificante compositor mal saído da adolescência, tive uma música censurada em um Festival Universitário porque a letra (de meu parceiro João Cleber Jurity) falava em "bengala gala", e o censor descobriu que no nordeste "gala" significava esperma de galo.

O tom do patrulhamento foi dado pelo Pasquim, com seu estilo complicado – havia o Cemitério dos Zumbis, de Henfil, que chegou a "enterrar" Elis Regina e Clarice Lispector por serem "alienadas"

Tanto Chico quanto Caetano se tornaram malditos do regime por suas incursões estéticas, por suas músicas e peças, Chico pela intragável "Roda Viva", Caetano e Gil pelo Tropicalismo.

(Em São João da Boa Vista alugamos um ônibus para assistir o Roda Viva. Voltamos absolutamente decepcionados com a agressividade gratuita da peça, com os atores procurando "interação" forçada com o público.)

Na época, qualquer evento era motivo para manifestações barulhentas dos estudantes, muitas vezes sem nenhum filtro ideológico.

Não se deve esquecer que os três foram tremendamente vaiados pelos universitários "politizados" – Chico no episódio do "Sabiá", Caetano e Gil no Festival Internacional, com "É proibido proibir". A música, aliás, era um desabafo contra a censura dos militares mas também contra o patrulhamento dos militantes. Mais do que contra o regime militar, era contra o terrível clima de disputas políticas (no âmbito do público universitário) que sufocava qualquer manifestação artística. O CCC espancou os atores do Roda Viva; os politizados espancaram "Sabiá". Os mpbzistas fizeram passeatas (!) contra a guitarra e contra a Jovem Guarda.

Havia uma ebulição permanente no ambiente universitário qie seria para tudo e para nada, muitas vezes sem nenhum filtro ideológico mais apurado.

Lembro-me de outro festival universitário da Tupi, no qual Fernando Faro tentou inovar montando uma proposta estética diferenciada. Minhas músicas "certinhas" foram desclassificadas. Entrou uma música experimental (bem ruinzinha). Com receio da indiferença, resolvemos ao menos provocar vaias. E entramos no palco vestidos de mendigos. Foi uma vaia só. Aí o apresentador pegou o microfone, espinafrou o público, disse que era contra o que fazíamos mas defenderia até a morte nosso direito de fazer. E o público se calou, para nossa decepção.

Nome do apresentador: Flávio Cavalcanti, símbolo máximo do regime militar na televisão. Voltamos para São João e Poços decepcionados: nossos ídolos, os agitadores universitários de São Paulo, calavam-se como crianças mal comportadas levando bronca do bedel.

Chico se consagrou com o grito de desabafo "Apesar de Você", refletindo o maravilhoso estado de espírito nacional, quando a democracia começa a voltar; assim como "Coração de Estudante", de Milton Nascimento.

Mas, mal começou a abertura, com a antiga oposição tomando o poder e se esfarelando em disputas por cargos, deu uma entrevista tirando o time de campo. Não se leu mais entrevista política de Chico, apenas manifestações de apoio a Lula em períodos eleitorais. É injusto com ele falar em oportunismo político com "Apesar de Você". Ora, se o compositor popular não capta o clima da opinião pública, que raio de popular é ele?

O grande problema da análise da MPB no período – que acomete a Internet, nas disputas ideológicas – é se tomar a parte pelo todo. A parte era um mundo pequeno, composto de críticos, músicos e um público restrito.

Como constata Alonso, a maioria da população apoiava a ditadura. E amava Chico.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Crítica do livro, por Pedro Alexandre Sanches

PAÇOCA: Autor considera Simonal bode expiatório dos que apoiaram a ditadura

Por Pedro Alexandre Sanches

Lá se foram 40 anos desde que o cantor Wilson Simonal foi pela primeira vez acusado de ser um “dedo-duro”, um colaborador da ditadura militar plantado na frente avançada da música popular brasileira. Ele permanece sendo o incômodo bode na sala da história heroica da MPB de seu tempo, mesmo depois do advento de trabalhos que insinuaram linhas possíveis de inocentação, como a biografia Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal (Globo, 2009), de Ricardo Alexandre, e o documentário cinematográfico Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei (do mesmo ano), codirigido por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.

Em 2011, um novo livro chega ao mercado editorial propondo uma nova reviravolta no caso mais perturbador da história da MPB. É o ensaio Simonal – Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga (Record), escrito pelo historiador Gustavo Alves Alonso Ferreira. Não se trata de adicionar grandes novidades à trama intrincada que levou o cantor carioca partir da fama absoluta, em 1971, para o completo ostracismo, poucos minutos depois.

Menos que isso, Gustavo Alonso estranha os esforços recentes por recuperar a imagem de Simonal por intermédio da negaçäo de suas responsabilidades e o trata, na contramão dessa tendência, como responsável por seus próprios altos (ou como “culpado”, como gostariam de rotular os fantasmas da família, da tradição e da propriedade).

O historiador empurra a história adiante, se esforçando antes por livrar Simonal (ou qualquer outro personagem) do papel inglório do bode expiatório. A defesa que faz é incômoda tanto à direita quanto à esquerda, justamente porque agarra os calcanhares da evidência também incômoda de que Simonal caiu em desgraça junto à esquerda que lutava contra a ditadura militar, mas, identicamente, junto à direita para a qual o cantor trabalharia como cúmplice delator.

Para ler o artigo completo e outras matérias confira edição de junho da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou clique aqui e compre a versão digital da Caros Amigos.

Fonte: http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/component/content/article/153-edicao-171/1744-pacoca-autor-considera-simonal-bode-expiatorio-dos-que-apoiaram-a-ditadura