sexta-feira, 1 de julho de 2011

Entrevista a Pedro Alexandre Sanches na Revista Fórum

O silêncio dos inocentes

Livro do historiador Gustavo Alonso questiona mitos da MPB à época da ditadura militar e defende que o arbítrio existiu não devido à passividade e da sociedade brasileira, mas porque a maioria dessa sociedade o apoiou, legitimou e aplaudiu.
Por Pedro Alexandre Sanches

Chico Buarque é o anti-Wilson Simonal. Essa tese não é o fio condutor do livro ensaístico Simonal – Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga, do historiador Gustavo Alonso. Mas é a conclusão mais polêmica e perturbadora a que chega o trabalho de um pesquisador que se afirma de esquerda, mas está disposto a contestar mitos e dogmas acalentados desde a ditadura cívico-militar brasileira, seja à direita ou à esquerda.

O livro é desdobramento da dissertação de mestrado que Gustavo apresentou em 2007 à Universidade Federal Fluminense (UFF). A demora de três anos da Record em editá-lo faz com que chegue simultaneamente à conclusão de sua tese de doutorado, sob o título Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira. A linha seguida em ambos é análoga à do também historiador Paulo Cesar de Araújo, autor do livro Eu não sou cachorro, não (Record, 2002), que explicitava preconceitos classe escondidos atrás da habitual trincheira de guerra aberta entre a sigla MPB e grupos artísticos rejeitados por ela.

O recorte de Gustavo se estende à própria ditadura de 1964. Despreocupado em culpabilizar ou inocentar Simonal das acusações de deduragem que a partir de 1971 dizimaram uma carreira até então gloriosa, o historiador quer mostrar que Simonal era um apoiador da ditadura, sim, mas estava longe de ser o único. Invertendo o ponto de vista habitual, encaixa seu personagem à evidência de que o arbítrio existiu não devido à passividade e apatia da sociedade brasileira, mas porque a maioria dessa sociedade o apoiou, legitimou e aplaudiu.

Memórias como a de um Chico Buarque heroico, defensor de todos contra os militares, seriam uma construção (ou distorção) posterior, assim como a de um Wilson Simonal maquiavélico e solitário na defesa de um regime, contra todo um país de vítimas 100% inocentes. É onde Chico seria o anti-Simonal, embora isso nunca seja proferido.

Gustavo, niteroiense nascido por acidente na cidade paulista de Aparecida, durante uma viagem do pai engenheiro e da mãe nutricionista, desenvolve na entrevista abaixo a provocação, questionando o papel de resistência atribuído à peça teatral Roda Viva (1968), de Chico, ou traçando semelhanças entre a hoje hegemônica Tropicália e o movimento da pilantragem, proposto por Simonal e interrompido com sua derrocada.

Fórum – De que lugar ideológico você defende as hipóteses de seu livro?

Gustavo Alonso – Eu me defino como de esquerda. Ainda acho essas categorias válidas, mas não estou muito disposto a adubar, proferir ou louvar certas histórias que foram contadas e viraram mitologia, mesmo na esquerda. Acredito que esquerda e direita existem, sim, mas gosto de desestabilizá-las e distorcê-las um pouco. Se é que se pode meter outra questão nessa polêmica, prefiro o tropicalismo, à medida que ele é e não é a esquerda, e é e não é a direita. Talvez seja a esquerda da esquerda, não sei. É melhor que a crítica da esquerda venha da esquerda. A crítica de direita volta e meia cai num moralismo muito grande. Sou de 1980, da geração que não viveu o auge da MPB, os festivais, os anos 1960 e 1970. Não gosto da palavra declínio, mas a MPB já não era o que era antes, e minha geração teve que lidar com esse legado. Algumas pessoas dizem: “Ah, você não viveu”. Como se fosse necessário viver a escravidão pra saber o que ela foi.

Fórum – Você não viveu também o auge da ditadura. O que isso significa para seu trabalho?

Gustavo – (Silêncio.) Boa pergunta. (Silêncio.) A questão da ditadura é um pouco a mesma questão da MPB. Talvez ter vivido naquele período intenso impossibilite perceber certas coisas através da memória, até porque a memória pode construir noções que não correspondam tanto à realidade. Talvez o olhar desta geração possa abrir novas possibilidades de análise e entendimento. Acho que o fato de eu não ter vivido a ditadura não chega a ser uma desvantagem. Também não diria que é uma vantagem, não. É um outro olhar. Falando disso mais pessoalmente, minha família, principalmente minha mãe, tem a referência da resistência à ditadura muito forte dentro dela. No entanto, as questões da esquerda da época não fazem sentido nenhum para ela. Questão da terra? É a favor do grande produtor rural. Igualdade social? Não, não tem que ter igualdade pra todo mundo. Encontrei o diploma de engenheiro do meu pai e vi que ele se formou em 17 de dezembro de 1968, quatro dias depois do AI-5. Meu pai não tem lembranças positivas da ditadura, mas nem negativas. Perguntei: “Pai, você se lembra da promulgação do AI-5?” “Não.” “Mas, pô, foi quatro dias depois, você não se recorda se teve confusão?” “Não, não teve.”

Fórum – Seu pai é o brasileiro médio de que você fala no livro, como Simonal?

Gustavo – É, um pouco indiferente, mas que ao mesmo tempo teve sua vida construída durante o período, como grande parte da sociedade brasileira. Eu queria menos tentar repudiar isso, afinal, bem ou mal, sou fruto disso, e mais tentar entender. Como assim? Como se viveu a ditadura de forma normal? Como apenas 4 mil pessoas estiveram direta ou indiretamente envolvidas com a resistência? Que legitimidade tinha essa ditadura na sociedade? A que anseios autoritários ela respondeu? Isso me possibilitou uma percepção para além da memória, porque essa memória eu não tenho. Não lembro o que é Medici discursando, ou Simonal cantando, ou Caetano no festival. Tenho a lembrança de vídeos. O livro teve inspiração nos questionamentos que a gente anda tendo no Núcleo de Estudos Contemporâneos (NEC) da UFF, com Daniel Aarão Reis, Denise Rollemberg, uma série de professores que vêm tentando repensar a ditadura, o apoio, a legitimidade, o consenso. Não para dizer que era válida, que é a leitura que a direita faz e muitas vezes a própria esquerda também faz dessa interpretação – ou seja, de que estamos relativizando a ditadura e por isso compactuamos com ela. Não é disso que se trata. Daniel Aarão, que é meu orientador, foi um dos caras que sequestraram o embaixador norte-americano. E é acusado por uma parte da própria academia de ser de direita.

Fórum – A mídia nos últimos anos tem a obsessão de querer determinar se Simonal era culpado ou inocente. Vou martelar nessa tecla, até porque sua posição parece diferente de todas as outras. Simonal era inocente ou culpado?

Gustavo – (Respira fundo. Silêncio.) Também não tenho provas cabais de nada, não consegui achar. Eu diria: ele seria um cara que poderia dedurar. Mas quem ele iria dedurar especificamente, Chico, Caetano? Não precisaria da pessoa dele para fazer isso. Mas era um cara que, como a maior parte da sociedade brasileira, estava vivendo a ditadura como uma solução, e não como uma coisa a ser combatida. Vivia como expressão dos seus próprios desejos, autoritários, sim, antidemocráticos, sim, desenvolvimentistas e economicistas, sim. Tentar trabalhar com um Simonal ingênuo? Ele não era ingênuo em nenhum momento. Além de transformá-lo em vítima, o transforma em vítima como se fosse apolítico, como se não se envolvesse nas discussões. Pelo contrário, estava sempre afirmando coisas, dizendo. Uma parte da academia tem essa ideia de que as pessoas eram caladas, reprimidas, que se tivessem o direito de falar falariam contra a ditadura. Mas o que a gente vê na música mais popular é que eles estão performando o regime, mais do que estão compactuando. É o regime que compactua com eles, é legal inverter.

Fórum – Sem entrar em questões maniqueístas de “inocente” e “culpado”, você defende que Simonal não era um cara inocente.

Gustavo – Sim, não foi escolhido para bode expiatório à toa. Bode expiatório é bode. Que ele era favorável ao regime, é inegável – como a maior parte da sociedade brasileira. Foi pro México, serviu de embaixador da música brasileira, do futebol, da sociedade. É a mesma situação do Pelé, mas o Pelé é mais gelatina. Roberto Carlos sempre foi gelatina, sempre fugiu dessas discussões. Simonal é o contrário do Roberto nesse sentido. Ele metia o dedo, era chato, provocante, irônico, debochado. Tanto é que o tom do escárnio que se tinha com Simonal depois da queda é muito parecido com o tom que Simonal tinha antes com as esquerdas louvadoras do samba. O maior problema é que inocentar o Simonal é continuar vendo o problema pela metade. É mais que isso, é tentar reintegrá-lo ao padrão da MPB sem problematizar a ditadura na MPB.

Fórum – Qual é sua leitura do papel de Chico Buarque, tido como um herói que nos defendeu da ditadura?

Gustavo – Não estou aqui pra dizer que essa imagem não tem validade. Ao contrário, está provado que é uma boa imagem. Mas ele não nasceu resistente, não é resistente desde o bercinho. Isso fica muito nublado na historiografia e na academia. Porque é o público dele, o público universitário. Mas a imagem do Chico “Apesar de Você” (1970) é jogada pra trás. É colocada lá desde 1966, tem livros que insistem em falar que em 1964 Chico juntou molotov em casa. Estou pouco interessado nessa grande questão, quero entender que imagem a sociedade tinha dele, assim como de Simonal. Ele podia resistir, mas inicialmente a sociedade não comprava essa imagem. Poderia juntar coquetel molotov, mas daí à sociedade percebê-lo como resistente depende de uma mediação. E tinha os tropicalistas falando que ele era avô musical. Roda Viva é constantemente supervalorizada na obra do Chico. A gente compactua com uma imagem que o próprio Chico quer construir dele, do literato, que daqui a pouco vai entrar na Academia Brasileira de Letras. Não se trata de afirmar o bom ou ruim romancista, como foi o debate com a Companhia das Letras, a Record, a Veja. O texto de Roda Viva é uma crítica à jovem guarda. A questão é que foi montada pelo Zé Celso Martinez Corrêa. Aliás, é engraçado que não existe o livro Roda Viva. Foi lançado lá em 1968 e depois nunca foi reeditado, e o próprio Chico considera uma peça menor, já falou em várias entrevistas que não gosta muito.

Fórum – Outra lebre que você levanta é da tradução do livro Yellow Submarine, dos Beatles, pelo Nelson Motta, que também nunca foi reeditada.

Gustavo – É aquela confusão entre pilantragem e Tropicália. Pepperland virou Pilantrália e o chefão lá da terra virou Superbacana (título de uma canção tropicalista de Caetano). Nelson Motta misturou os dois, nesse espírito do colorido, da ironia, da brincadeira. Toda vez que levantei essa questão da semelhança, na própria academia, tomei pau. Com exceção do Caetano, todas as pessoas que entrevistei, inclusive os pilantras, reagiram contra essa semelhança.

Fórum – É dessas convenções que todos repetem igual sem muito saber por quê.

Gustavo – A memória que se constrói hoje sobre Simonal quer recolocá-lo na MPB, e pra recolocá-lo não pode problematizar a MPB, o tropicalismo, a bossa nova. Tem que colocar ele de volta lá, então tem que falar ele era um bom bossanovista, um showman maior que Roberto. Nesse ponto, Caetano acaba ficando muito parecido com a memória daqueles que ele combateu na esquerda mais tradicional. Ele, e os tropicalistas em geral, se coloca como um vanguardista, um visionário – e é de fato. Mas isso explica também, em parte, o esquecimento do Simonal. Até recentemente, era a memória fundada no dedo-duro, ou então não se falava do Simonal. E o tropicalismo ajudou, não a dizer que era dedo-duro, mas a silenciar, porque afirmar Simonal seria colocar ele como concorrente. Ele era Roberto Carlos com Jorge Ben e com Chacrinha, os três juntos, os três mitos dos anos 1960 para o tropicalismo, reunidos na mesma pessoa. Por que o tropicalismo não incorporou? É a mesma questão que levanto pro Chico. Até a volta do exílio a memória que se tinha dele era do cara muito bom por fazer músicas tradicionais, “o novo Noel Rosa”. Esteticamente ele sempre foi visto como um grande cara, desde o começo, eu não negaria isso, mas politicamente ele não era visto como combativo. Chico era feito não só pelas esquerdas no início dos anos 1970. Volta e meia era incorporado pela direita, Jarbas Passarinho gostava dele. Chico agradava uma determinada direita folclorista.

Fórum – E o texto de Roda Viva, na sua opinião, não era de resistência?

Gustavo – O texto, tenho certeza absoluta que não é, não era contra a ditadura. Não há nada ali, só há uma denúncia da indústria cultural, do rock, da música importada. A gente acaba compactuando com a imagem que o Comando de Caça aos Comunistas deu pra Roda Viva. O que o CCC via? Via como uma peça subversiva. Aí dizemos: Roda Viva era uma peça subversiva, por isso foi reprimida, acuada, invadida pelo CCC. Essa imagem não se sustenta no texto. Tanto é que a montagem gerou problemas com o Chico Buarque. Zé Celso queria problematizar a chicolatria, chegou a propor um cartaz com os olhos de Chico boiando no cartaz como se fosse num açougue, ironizando a chicolatria. Quem tinha esse perfil debochado, irônico, era o Zé Celso, mas isso é creditado ao Chico, pra provar que ele estava resistindo lá em meia oito.

Fórum – O livro fala do exílio na Itália como divisor de água entre os dois Chicos.

Gustavo – Esse período na Itália é interessante pra repensar essa metamorfose do Chico, mas não chega aqui no Brasil. Eu só soube pelo Luca Bacchini, um italiano que fez essa tese lá. Chico Buarque foi vendido na Itália como um cantor de protesto. Era isso que os italianos queriam, ou a gravadora RCA achava que queriam – ele não fez nenhum sucesso lá. Achavam que assim iam fazer dos discos dele um sucesso, mas logo perceberam que só “A Banda” tocava lá.

Fórum – A RCA se baseou no que estava acontecendo no Brasil, que existia uma ditadura e uma resistência contra ela?

Gustavo – É, uma sala secreta de uma gravadora percebeu isso. Nesse caso a indústria cultural ajudou a forjar a imagem do Chico Buarque, o que é paradoxalíssimo. Ele acatou essa forma de ser vendido, mas parece que foi percebendo que era um desejo de um determinado grupo social no qual estava inserido. Depois dessa experiência italiana, ele meio toma a tocha do Geraldo Vandré. Não só ele, vários artistas perceberam que convinha cantar um som mais identificado às universidades, que sempre foi o público da MPB. É uma percepção que não veio desde o berço, se deu no cotidiano, nas disputas. Elis Regina fez isso. Chico percebeu logo, e depois disso virou esse mito. A imagem que ele quer pra si e a que a sociedade tem dele são muito coladas, muito simbióticas. Ficou tão forte que algumas problematizações que eram jogadas pra outros artistas não eram jogadas pro Chico. Ele nunca foi questionado, por exemplo, por gravar por uma grande multinacional. Era um compositor inicialmente de sambas, modernos, mas sambas. Como assim, se você está defendendo um ideário nacional, popular? Deveria ser um problema para pessoas que têm um ideal nacional-popular com cores revolucionárias.

Fórum – Não é curioso que Chico passou a se negar a politizar sua obra e hoje se recusa a dar entrevistas? Talvez já tenha se tocado disso tudo?

Gustavo – Tendo a achar que sim. Ele é atento a essas questões. Ao mesmo tempo, é refém dessa imagem de medalhão, que ele mesmo e os outros criaram pra ele. Como Simonal também era refém da imagem que se criou dele. Por isso acho interessante pensar os dois juntos.

Fórum – Chico é o anti-Simonal? Isso não é verbalizado, porque se não existia o Simonal não existia também o anti-Simonal. Mas existia.

Gustavo – Na memória coletiva ficou entronizado assim, o que foi extremamente lucrativo pra ele, e ainda é. Sou um cara que passou a ouvir Chico com 21 anos. Não gostava, sinceramente, achava música de velho. Minha geração tem a possibilidade de fugir do mito de Chico Buarque, o que não é de nenhuma forma desmerecê-lo, mas tentar compreender de que forma esse mito foi gestado. Isto me espanta: as pessoas, na universidade, têm mil teorias pra explicar a complexidade do mundo, mas citou Chico Buarque, acabou a complexidade, chapou tudo, Chico resistiu e acabou, ponto. Comecei a pensar essas coisas naquela onda insuportável de Los Hermanos, em 2003. Adoro Los Hermanos, mas os losermaníacos são muito chatos, não consigo conversar com eles. São chicólatras nesse sentido, nada é comparável, nada chega a esse degrau. Outra coisa que me levou a pensar essas questões foi aquele plebiscito das armas, em 2005. Fiquei muito impressionado com o tom agressivo da sociedade. Eu era contra as armas, fui acusado de ser pró-Globo, de querer que a população fosse passiva. O tom era agressivo, ostensivo, meio Veja, principalmente da galera a favor da continuação das armas.

Fórum – É mesma sociedade que quis uma ditadura algumas décadas antes? É o que você diz no livro: a sociedade quis, permitiu, apoiou, e hoje tem vergonha, e Simonal é um bom bode expiatório pra deixar tudo embaixo do tapete.

Gustavo – Sim, mas o mais interessante sobre o Simonal é a reabilitação, a inocentação. Daqui a pouco todo mundo vai estar inocente, ninguém apoiou. Já é meio assim.

Fórum – A ditadura existiu porque a maioria da sociedade queria?

Gustavo – Infelizmente. A própria noção de ditadura militar corrobora isso, como se a ditadura tivesse sido militar. Os presidentes foram militares, mas todo o staff deles era civil. O Congresso fechou algumas vezes, mas havia Congresso. Mais que isso, havia eleições. Com meus familiares esse é um ponto que sempre incomoda muito, quando pergunto: “Vem cá, você votava em quem?”. “Não, não votava.” “Como não votava? Você era servidor público, como não votava?” “Não, não tinha eleição, não.” “Não, calma aí, tinha.” Não conseguem responder. Simplesmente esqueceram que iam votar.

Eu estava pesquisando os festejos de 1972 sobre os 150 anos da Independência do Brasil. Foram muitas festas, o corpo de Dom Pedro I veio de Portugal transladado pra ficar no Museu do Ipiranga, visitou todas as capitais, e em todas as capitais teve uma multidão recebendo o corpo. Teve as Olimpíadas do Exército, um mundialito de futebol, os filmes, Independência ou Morte. Era o auge do Milagre Econômico, antes da crise de 1973. Pergunto pras pessoas que viveram: “Não, quem estava lá na rua era obrigado, era estudante que a escola tinha que ir”. Pelos jornais da época, não era bem assim. É triste reconhecer isso, mas me parece melhor do que ficar simplesmente com a noção de que a sociedade foi vítima, não tinha nada a ver. Quem não sabia que as pessoas eram torturadas? Isso não dá. Esse é o problema da imagem inflada do Pasquim e do Chico, parece que estavam falando aquilo que a sociedade falaria se não estivesse calada. Não, quando se incita a sociedade a falar, ela performa aquilo que o regime vai ser no futuro.

Fórum – Ou seja, a sociedade faz a ditadura, e não o inverso.

Gustavo – É, e é uma ditadura civil-militar. E essa imagem dos militares como salvadores da pátria não foi forjada ali, vem desde a Guerra do Paraguai, nos vários golpes preventivos que os militares deram no século XX, todos dentro desse imaginário do exército como representação da sociedade. Não tenho nenhum apego ao exército, mas a sociedade se vê representada nele. É o Bope. Então havia http://www.blogger.com/img/blank.gifos resistentes, que eram pouquíssimos, e do outro lado as velhas senhoras que apoiavam o regime, o CCC, a Tradição, Fahttp://www.blogger.com/img/blank.gifmília e Propriedade? Não é bem assim. O apoio ao regime era muito maior que esses espectros tradicionalmente conservadores.

Outra coisa que ajudou muito a pensar a ditadura, me entenda corretamente, foi o governo do Lula. Não o governo em si, que é totalmente diferente, mas me chamaram atenção os 80% de aprovação do Lula. É igual ao que o Medici tinha. A sociedade não era passiva, nem o Simonal era passivo ou ingênuo.

Fonte: Revista Fórum, N. 99. http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_materia.php?codMateria=9257 ou no site do P.A. Sanches: http://farofafa.com.br/2011/06/29/o-silencio-dos-inocentes/#comments

Crítica ao livro: o tom é parecido com os arautos das direitas... mas o autor se diz esquerdista "da gema". Alegria, alegria, pessoal!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

LIVRO SOBRE SIMONAL E A CRISE DA MPB

Por Alexandre Figueiredo

Está em lançamento um livro que acirrará as discussões sobre a crise da MPB, mas que redundará no mesmo maniqueísmo cafonice/sofisticação que tempera os parcos debates da turma da visibilidade plena.

Pedro Alexandre Sanches, desta vez, "rachou" um mesmo tema para a revista Fórum e a Caros Amigos. Na primeira, publicou uma entrevista, na segunda uma resenha, sobre o mesmo livro, Simonal - Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga, que Gustavo Alonso lança pela Editora Record.

Sanches, na reportagem-entrevista da Fórum, puxou a brasa para sua sardinha cafona, em tempos de 80 anos de FHC, citou Paulo César Araújo, que no ano do apagão de 2001 fez um livro que se tornou obra básica para entender a aplicação da Teoria da Dependência de FHC e Enzo Faletto aplicada à música brasileira: Eu Não Sou Cachorro, Não, também pela Record.

No seu projeto ideológico, o pupilo de Otávio Frias Filho, em suas entrevistas, às vezes escreve ou comenta sobre a (suposta) injustiça vivida pelos brega-popularescos. Suposta, porque eles são o establishment, embora oficialmente não se reconheça isso. Mas aqui a missão se aproxima mais de uma iconoclastia à chamada elite da MPB, que é aquele lado ABL da música brasileira.

O livro de Gustavo Alonso, a princípio, só coincide com o livro de PC Araújo, supracitado, no esforço de combater as chamadas "vacas sagradas" da MPB. O alvo é sobretudo Chico Buarque, cujo perfil combativo durante o regime militar, certamente, é superestimado. Mas há uma ânsia incrível em desmitificá-lo, como quem desejasse derrubar uma estátua pelo simples prazer de derrubá-la.

Para quem desejaria ver como "heróis" Chimbinha, Gaby Amarantos e Tati Quebra-Barraco, como o colonista-paçoca, faz sentido uma ânsia, por mais respeitosa que seja, de ver Chico Buarque como um oportunista que se enriqueceu durante o regime miltar com seu "suposto" engajamento.

Gustavo Alonso até não pega tão pesado quanto PC Araújo - que tentou promover os ídolos cafonas como se fossem "cantores de protesto" e achava que quem fazia a trilha sonora dos anos de chumbo era o compositor de "A Banda" e "Vai Passar" - , mas contribuiu para a lavagem de roupa suja da Editora Record, que não gostou de ver o compositor e escritor ganhar um prêmio literário, em detrimento de um romance de Edney Silvestre, jornalista da Globo, publicado pela editora.

Também a reportagem, da parte de Pedro Sanches, também é outra revanche de querer "derrubar" um mito cuja irmã é a ministra da Cultura Ana de Hollanda que, como cantora, é ligada à ala "biscoito fino" da MPB, antipatizada pelo colonista-paçoca.

Mas o que surpreende na obra é a mea culpa que Gustavo parece atribuir ao povo brasileiro quando o assunto é regime militar, sobretudo durante o período do "milagre brasileiro". É certo que uma tradição conservadora de anos fez o povo defender o golpe militar e o "milagre brasileiro", mas aqui mostra-se uma ânsia de desqualificar as esquerdas no país, ainda que o autor do livro se diga "de esquerda".

O que aliás é uma mancha que tira de Pedro Sanches qualquer mérito dele ser reconhecido como imprensa de esquerda. Até porque parecia que era ontem que ele servia a outros senhores: Frias, Civita e Marinho.

Evidentemente a desqualificação de Chico Buarque segue a mesma lógica da desqualificação dos CPC's da UNE e do ISEB, feita por uma intelectualidade amestrada desde os anos 80 pelo pré-tucanato da USP. E que gerou as bases teóricas para a defesa do brega-popularesco no fim da Era FHC, por PC Araújo, Hermano Vianna, Pedro Sanches e outros.

É uma lógica de desqualificar projetos progressistas de cultura popular, e, em oposição aos mesmos, criar um outro paradigma de "cultura popular" associado a regras mercadológicas do neoliberalismo, e bem ao gosto dos barões da mídia, do entretenimento e do atacado & varejo.

SIMONAL - Quando li o livro de Ricardo Alexandre sobre Wilson Simonal, Nem Vem Que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal (Editora Globo), constatei, refletindo, que o episódio que classificou o cantor de "dedo duro" foi, na verdade, fruto de um desentendimento entre o cantor e dois seguranças, que resolveram se vingar e espalhar a versão de que "Simona" torturou e sequestrou um sócio e que iria denunciar, feito um macartista brasileiro, artistas que estivessem engajados em combater o regime militar.

Wilson Simonal, como disse Gustavo Alonso, certamente não era ingênuo. Mas seu sucesso estrondoso foi algo que lhe escapou ao controle. Simonal criou uma empresa para cuidar de sua carreira, o que talvez fosse demais para um sucesso tão meteórico. E, com os problemas trabalhistas, veio o desentendimento com um sócio. E depois uma discussão com seus seguranças. E aí estes resolveram destruir a carreira do cantor, com a boataria.

Simonal não era de esquerda nem de direita. E era um artista ímpar, que traduziu a influência da soul music com elementos de samba e Bossa Nova sem qualquer pedantismo e uma criatividade que misturava senso de humor e refinamento. Era um artista que ficava a meio caminho entre a sofisticação de Agostinho dos Santos e a johttp://www.blogger.com/img/blank.gifvialidade de Jair Rodrigues. E, curiosamente, Simonal imitou um e outro num de seus programas de TV.

O ponto positivo dos últimos anos é que a revisão de Wilson Simonal irá esclarecer o caso que abalou sua carreira, ainda que ele não esteja mais entre nós. Mas sua herança artística é devidamente seguida pelo herdeiro musical e biológico, Wilson Simoninha, que, se não fosse a mediocridade musical dominante em nossos dias, seria o cantor mais popular do país, no lugar dos sofríveis ídolos do esquecível "pagode romântico".

Fonte: http://mingaudeaco.blogspot.com/2011/06/livro-sobre-simonal-e-crise-da-mpb.html

Críticas ao livro... ou a sabe-se lá o que...

terça-feira, 28 de junho de 2011

PEDRO A. SANCHES E A "POPULARIDADE" DO REGIME MILITAR

Por Alexandre Figueiredo

Quando folheei a revista Fórum, semanas atrás, li a entrevista do "colaborador" Pedro Alexandre Sanches com o historiador Gustavo Alonso, autor do livro Quem Não Tem Swing Morre Com a Boca Cheia de Formiga, da Editora Record.

Sabemos que Record, Alonso e Sanches, juntos, parecem com vontade de derrubar a reputação dos Buarque, já que a Record perdeu um prêmio literário por causa de um livro de Chico Buarque, Alonso investiu numa desnecessária oposição entre Wilson Simonal e Chico Buarque e Sanches queria ver cair a "MPB biscoito fino" simbolizada não só por Chico, mas por sua irmã ministra e também cantora Ana de Hollanda.

E sabemos também que a campanha de Sanches contra essa facção da MPB no fundo não é mais do que um desejo de substituir alhos com bugalhos. Será que um MinC hipotético com Frank Aguiar no lugar de Ana de Hollanda e com a turma do Som Zoom Sat no lugar do ECAD faria a música brasileira mais "humana"?

Definitivamente, não. Ficaria pior. A MPB "biscoito fino", com todo o elitismo a que se atribui a esse grupo, pelo menos se compromete com a qualidade musical e com o zelo de nossa cultura, a despeito de seus membros serem de classes mais abastadas. Já a "cultura popular" de joelmas, chimbinhas, reginhos, marlboros, catras, belos, chitões, chicletões etc não é mais que um arremedo da cultura brasileira submetido aos padrões ianques do "deus mercado", aqui vigentes pela vontade da grande mídia nacional e regional.

Mas o que estranha na atitude de um jornalista que tenta se autopromover às custas da imprensa esquerdista, além de lançar em suas páginas e arquivos htm conceitos direitistas sobre "cultura popular", é o consentimento que o colonista-paçoca teve quando Alonso afirmou que a ditadura militar era "bastante popular".

Alonso chega mesmo a comparar o general Emilio Garrastazu Médici a Lula, como se quisesse, numa troca tendenciosa, "emprestar" o carisma lulista ao general dos primórdios do AI-5 e, por outro lado, dar a Lula uma suposta continuidade do "milagre brasileiro" que existiu há 40 anos.

DESQUALIFICAR AS ESQUERDAS

Na entrevista de Sanches com Alonso, fica subentendida uma vontade de desqualificar as esquerdas de nosso país. Sob o pretexto de criticar o "sectarismo" e a "patrulha" esquerdista, o jornalista e o historiador, ainda que se digam "esquerdistas" - mas essa "postura" até Fernando Henrique Cardoso diz ter - , parecem dispostos a promover uma imagem negativa dos movimentos esquerdistas, tidos como "radicais".

Afinal, não se trata de desqualificar os equívocos naturais de grupos como a Vanguarda Popular Revolucionária, por exemplo. Trata-se também de tentar uma associação hipotética de Chico Buarque com o regime militar, ainda que de uma maneira menos radical que Paulo César Araújo, o sinistro historiador que tentou promover os ídolos cafonas como "cantores de protesto".

O que está em jogo nisso tudo é que, ao redor de Chico Buarque, há outros referenciais autênticos que seriam desqualificados e desmoralizados junto a ele. Seu pai foi Sérgio Buarque de Hollanda, integrante de uma maravilhosa e prestigiada geração de intelectuais herdeira das lições do Modernismo de 1922, que se destacou sobretudo nos anos 40 e 50. Essa geração teve seu auge no respaldo ao ISEB, o corajoso Instituto Superior de Estudos Brasileiros que estudava um projeto de desenvolvimento autônomo para o Brasil.

Chico, seja por ele mesmo, seja por seu pai, também traz ramificações com os Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes, cujo legado hoje tornou-se injustiçado. Afinal, os CPC's da UNE também tinham ligações com o ISEB, mas se vinculavam com a modernidade cultural do início dos anos 60, como Edu Lobo, Carlinhos Lyra, Sérgio Ricardo e Nara Leão, que, fundindo-se com a sofisticação bossanovista, desenvolveu-se a admirável geração da MPB dos anos 60, paradigma hoje da geração "biscoito fino" tão reprovada pelo discípulo de Tavinho Frias.

Voltando à "popularidade" do regime militar, não existe um questionamento a respeito das condições de persuasão que as elites fizeram para conquistar a opinião pública. Além do mais, foi ignorada a ideia de que João Goulart, o "insuportável" político do Brasil progressista de 1961-1964, tinha sido muito popular em suas votações como vice-presidente brasileiro. Vale lembrar que se votava em separado para vice-presidente, conforme a Constituição de 1946 determinou.

E olha que Jango apavorou as elites brasileiras praticamente pelo mesmo projeto político e econômico que Lula desempenhou nos oito anos de seu mandato.

O pior de tudo é que Pedro Alexandre Sanches quer se impor como "o crítico musical de esquerda". Não é como Delfim Netto, o ministro do regime militar e artífice do "milagre brasileiro", cuja coluna na Carta Capital é um cantinho à parte que não se mistura à mídia esquerdista.

Ninguém diz que Delfim Netto é intelectual de esquerda. Mas Sanches, cuja teoria sobre cultura popular é "encharcada" de conceitos lançados por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto na Teoria da Dependência da linha weberiana e pohttp://www.blogger.com/img/blank.gifr Francis Fukuyama nos seus estudos sobre o "Fim da História" (Sanches demonstra defender o "Fim da História" para a MPB), quer estar associado à intelectualidade de esquerda, escrevendo para os três principais periódicos da imprensa esquerdista e tendo lançado dois livros pela Editora Boitempo, para defender dois cantores alinhados à direita ideológica, ainda que bastante talentosos e carismáticos.

Francamente, com essas e outras, estamos esperando o dia em que Pedro Alexandre Sanches, tendo conseguido o que queria, voltará como filho pródigo para a Folha e baterá ponto no Instituto Millenium.

Fonte: http://mingaudeaco.blogspot.com/2011/06/pedro-sanches-e-popularidade-do-regime.html

terça-feira, 2 de junho de 2009

Pilantragem não foi soh Simonal, não!

A Pilantragem vai além de Simonal, galera! se é para "reabilitar" o homem é bom que lembremos também do gênero que ele ajudou a criar no Brasil! Embora Simona tenha sido a figura mais importante do movimento da Pilantragem, é bom lembrar que varios artistas se envolveram naquela "moda"!

Simonal foi apagado da musica popular em grande parte por causa da Pilantragem, vista como uma besteira, uma simples brincadeira, musica sem pretensões, ingenuidades num periodo de "Caminhando e Cantando" e "Apesar de vocês"...

Roberto Carlos e o Tropicalismo também foram criticados pelo mesmo motivo nos anos 60, mas conseguiram sobreviver!
esse odio à Pilantragem perdura até hoje: olhem o que a cantora Joyce escreveu no blog dela sobre a Pilantragem! http://outras-bossas.blogspot.com/

alguns discos da Pilantragem podem ser baixados através do http://loronix.blogspot.com/
Discografia da Pilantragem

Som Três
(Cesar Camargo Mariano, Sabá e Toninho Pinheiro
· Som Três: "Na onda do sambarock". RGE, 1966.
· Som Três Show. Odeon, 1968.
· Som Três vol. II. Odeon, 1969.
· Som Três vol. III – “Um é pouco, dois é bom...”. Odeon, 1970.
· Som Três vol. IV – “Tobogã”. Odeon, 1970.
· Som Três (Coletânia). Odeon, 1971.

A Turma da Pilantragem
(Nonato Buzar, Regininha, Malu, Dorinha entre outros)
· O som da pilantragem. Polydor-CBD, 1968.
· O som da pilantragem nº 2. Polydor-CBD, 1969.
· O som da pilantragem internacional. Polydor-CBD, 1969.

Carlos Imperial
· Pilantrália com Carlos Imperial e a Turma da Pesada. Parlophone, 1968.

Erlon Chaves
· Banda Veneno de Erlon Chaves. Philips, 1971.
· Banda Veneno Internacional. Fontana, 1972.
· Banda Veneno Internacional vol. 2. Fontana, 1972.
· Banda Veneno Internacional vol. 3. Fontana, 1973.
· Banda Veneno Internacional vol. 4. Fontana, 1974.
· Banda Veneno Internacional vol. 5. Fontana, 1974.

Os diagonais
(Genival Cassinao, Hyldon, Luizão)
· Os diagonais. CBS, 1969.
· Cada um na sua. CBS, 1971.

Regininha
· Me ajuda que a voz não dá – Regininha. Polydor-CBD 1969.

Os Pilantocratas
(Wagner Tiso, Paulo Moura, Pascoal Meirelles, Oberdan Magalhães)
· Pilantocracia. Gravadora desconhecida. 1969.
Marcos Moran
* Compacto Simples, Caravele, 1968
Musicas:Banho de sorvete (Carlos Imperial) bye, bye (Carlos Imperial)
* Compacto Simples, Musidisc, 1970
Musicas:Ui, ui, ui (Marcos Moran)Call me (vs. Marcos Moran)
LINKS para DOWNLOAD
Lp do Som Três, o grupo de Cesar Camargo Mariano.
disco de 1969 do Som Três estah aqui:
outro do Som Tres de 1969 tb:
Banda Veneno e Erlon Chaves:
Turma da Pilantragem, de Nonato Buzar
aqui tem alguns discos do Simonal:
Pilantocratas, 1969.
LP. Carlos Imperial e a Pilantralia!
Adolfo e a Brazuca.
O disco de Jorge Ben de 1969 tb estah dentro do espirito da Pilantragem
Os diagonais, grupo influenciado pela Pilantragem
Banda Black Rio, cujo o fundador, Gerson King Combo, era dublê de Simonal http://loronix.blogspot.com/2006/06/banda-black-rio-saci-perere-1980.html
Geraldo Vespar, guitarrista da Pilantragem, era um violonista classico:
Marcos Moran gravou um disco de samba nos anos 1970 que vale a pena dar uma olhada!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Audio do Podcast da Bravo!

Em maio de 2009, a revista Bravo! fez um podcast comigo sobre a carreira de Simonal!

Revista Bravo! maio de 2009

apesar do erro no meu nome e citação que eu não fiz, aqui está a reportagem da Bravo! sobre o filme.
O Ídolo Linchado

O filme Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei joga luz sobre um dos episódios mais cruéis da história brasileira. E responde à pergunta: afinal, o cantor era ou não informante da ditadura?

Por André Nigri

No dia 7 de setembro de 1971, o jornal carioca O Pasquim publicou um dos cartuns mais cruéis da história da imprensa brasileira. No desenho, vê-se a mão de um homem com o dedo indicador esticado, apontando para alguém. No texto que acompanha o cartum, lê-se: "Como todos sabem, o dedo de Simonal é hoje muito mais famoso do que sua voz. A propósito: Simonal foi um cantor brasileiro que fez muito sucesso no país ali pelo final da década de 60". O desenho tem uma pitada de racismo, e o texto, um teor tragicamente profético. Racismo: a mão é negra. Profecia: de 1971 até sua morte, no ano 2000, o cantor Wilson Simonal viveu uma situação ímpar no show business brasileiro. Pelo "crime", jamais provado, de que teria sido informante da ditadura (daí o dedo do delator desenhado pelo Pasquim), teve o pior castigo que um artista pode sofrer: o ostracismo. As gravadoras, a televisão e as casas de show lhe fecharam as portas. Com a carreira violentamente amputada, Simonal mergulhou na depressão e no alcoolismo. Isso depois de ele ter se consagrado como o maior artista pop de seu tempo, rivalizando com Roberto Carlos. Nos 29 anos em que o cantor sobreviveu à tragédia pessoal e artística, até sua obra foi esquecida. "Eu não existo na história da música popular brasileira", costumava dizer à segunda mulher, Sandra Cerqueira. O nome Simonal deixou de evocar suas músicas. A menção a ele em rodas de conversa trazia sempre à tona uma pergunta infalível: afinal, ele delatou mesmo?
A melhor resposta já dada a essa questão está no documentário Simonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei, dirigido por Claudio Manoel (um dos integrantes do humorístico Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal, que estreia nos cinemas neste mês. A verdade sobre Simonal emerge de uma miríade de depoimentos sensacionais, alguns verdadeiros furos de reportagem, que permitem ao espectador reconstituir com alguma precisão a verdade sobre o cantor. Antes de mergulhar fundo no momento que transformou radicalmente a vida de Simonal, no entanto, o filme se dedica a mapear sua trajetória e mostrar a dimensão de seu sucesso. Wilson Simonal de Castro nasceu em uma favela da zona sul do Rio de Janeiro, filho de uma empregada doméstica que trabalhava em residências em Ipanema e no Leblon. Sua vida começou a mudar quando o adolescente que não havia tido a oportunidade de estudar entrou para as Forças Armadas. Lá, descontraía os colegas recrutas cantando. Foi então descoberto pelo produtor musical Carlos Imperial (1939-1992), o mesmo que lançara Roberto Carlos no início da década de 1960. Em poucos anos, Simonal se transformou em um dos cantores mais populares do Brasil, tendo como único rival justamente o "rei" Roberto Carlos.
Numa das muitas cenas incríveis do documentário, Simonal aparece cantando para uma plateia de cerca de 30 mil pessoas no Maracanãzinho, numa época em que cantores só lotavam pequenas boates e teatros. O show fez parte da final do Festival de MPB da TV Record em 1969. O sucesso se devia, em parte, a seu carisma no palco. Simonal, mais do que um cantor, era o que os americanos chamam de entertainer, um showman talentoso e irresistível. Balançando os braços, ele levava a multidão a cantar como um maestro rege seus músicos. Em outra cena antológica do filme, aparece cantando em inglês ao lado de Sarah Vaughan, àquela altura considerada uma das maiores intérpretes do mundo (Simonal não falava inglês, mas com o ouvido privilegiado tirava as letras foneticamente). Fora dos palcos, o cantor ainda aparecia em comerciais de televisão. No fim da década de 1960, ele se tornou garoto-propaganda da petrolífera Shell, no maior contrato de publicidade assinado até então por uma celebridade brasileira. Seu modo de vida era de um popstar da época. Gastava o que ganhava em carros importados (tinha três Mercedes-Benz; Roberto Carlos, uma) e bons uísques e vivia cercado de mulheres lindas.
A tragédia começou em meados de 1971. O cantor viu sua conta bancária emagrecer e resolveu dar uma olhada na contabilidade da sua empresa, a Simonal Produções. Desconfiou que seu contador, Raphael Viviani, o estava roubando. É nesse momento que, com base nos depoimentos, é possível reconstituir com relativa precisão o episódio que mudou a vida do cantor. Em sua primeira entrevista longa em quase 40 anos, Viviani conta que foi procurado em casa por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Negando-se a assumir o roubo, foi levado para um dos muitos porões da ditadura. Apanhou, levou choques elétricos e acabou assinando a confissão de que havia, sim, desviado dinheiro. Segundo Viviani, na manhã que se seguiu à noite de torturas, o próprio Simonal apareceu no Dops — um indício de que os gorilas do regime teriam agido a mando dele.
Colocado em liberdade, Raphael foi prestar queixa em uma delegacia de polícia. Poucos dias depois, o caso ganhou as páginas da imprensa. Um inspetor, Mário Borges, deu uma entrevista dizendo que Simonal era informante do Dops — a afirmação sem provas que, amplificada, acabou ganhando contornos de verdade e destruindo a carreira do cantor, que nada fez para desmenti-la na ocasião. Ao contrário. Pressionado, o próprio Simonal deu entrevistas dizendo ser "de direita". Pior: justificou o fato de ter procurado o Dops usando uma história mirabolante. Acusou o contador de ser terrorista, tendo feito ameaças de atentado a ele por telefone. Segundo Viviani, Simonal teria sido orientado por um mau advogado a lançar mão de tal disparate. O contador faz questão de frisar, também, que nunca roubou — diz que as finanças do músico começaram a minguar quando a Shell rompeu o contrato com ele.
Pela surra encomendada, Simonal foi investigado e condenado em 1972 a cinco anos e quatro meses de prisão, cumpridos em liberdade. A pena, no entanto, foi o de menos. O pior foi o castigo imposto pela chamada "esquerda intolerante" — na expressão usada pelo falecido deputado Paulo Alberto Monteiro de Barros, o Artur da Távola —, que se aferrou à versão de que Simonal era delator, embora não houvesse nenhuma prova disso. De acordo com depoimentos dos filhos de Simonal, Simoninha e Max de Castro, vários artistas da MPB ligaram para casas de espetáculo ameaçando nunca mais tocar nos estabelecimentos caso shows do pai fossem contratados (os dois músicos não mencionam nomes). José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então um dos diretores da TV Globo, conta no filme como o cantor acabou banido também dos programas da emissora, embora não houvesse ordens expressas para isso. Segundo ele, a antipatia por Simonal era grande entre os roteiristas e diretores dos programas, motivo pelo qual ele não era mais convidado.
O ostracismo resistiu à redemocratização do país. Em 1995, Simonal chegou a procurar a Secretaria de Direitos Humanos do governo Fernando Henrique em busca de um "nada consta" do Dops — ou seja, um documento que atestasse que ele nunca havia trabalhado, formal ou informalmente, para o órgão da repressão. Conseguiu-o, mas na época ninguém quis saber. Nas dezenas de depoimentos que compõem o filme, não se encontrou ninguém que soubesse de denúncia ou delação feita por Simonal, o que mostra que a afirmação leviana do inspetor Mário Borges era apenas isto: afirmação leviana. Capaz, no entanto, de destruir uma carreira de forma definitiva. Em 2000, Simonal morreu de falência hepática decorrente do uso compulsivo de bebida.
As duas mortes de Simonal — a primeira em 1972, com seu banimento como cantor, e a segunda em 2000 — começam a suscitar inúmeras análises. De acordo com o historiador Gustavo Alves Affonso Ferreira — que prepara um livro sobre o cantor, a ser lançado ainda neste ano pela editora Record —, havia dois lados bem definidos no fim dos anos 60. De um deles, estavam os generais e todo o simbolismo de que se cercavam ou era associado a eles: o tricampeonato da seleção brasileira na Copa do México, em 1970, o ufanismo dos desfiles militares, o "Brasil grande" com seus ícones, como a rodovia Transamazônica, a usina nuclear de Angra dos Reis e alguns cantores. Estes, identificados como bregas, não incomodavam a esquerda. Do outro lado, no "Brasil do bem", estavam os artistas eleitos pretores da resistência, mesmo sendo tão díspares como Caetano Veloso e Chico Buarque. E, meio fora desses dois mundos, havia Simonal. Definitivamente, ele não era brega: cantava ao lado de Elis Regina e Jorge Benjor e era parceiro de Roberto Menescal. Fazia parte do time de frente da MPB com sua música suingada, muito dançante e bem cantada. Talvez tenha sido essa a sua desgraça.A esquerda da época precisava de um Judas para malhar, e Simonal, com sua origem humilde, parecia não compreender o momento histórico. Sua mensagem política se resumia a exibir a pele negra e dizer que um sujeito de cor, nascido na favela, podia chegar ao sucesso. O linchamento de Simonal, assim, acabou sendo uma maneira enviesada de enxovalhar o regime. Para entender o que se passou, pode-se pegar de empréstimo, por fim, uma ideia do escritor e ensaísta italiano Roberto Calasso. Segundo ele, há momentos históricos em que a sociedade repete um rito primitivo de linchamento para expiar a própria culpa. Esse ritual se dá, metaforicamente, na forma de uma rodinha de pessoas em torno de um cadáver. Quem participa da rodinha pertence a uma seita vastíssima de devotos, inerme e persecutória, que Calasso chama de "Opinião Pública". Pode-se dizer que, nos anos 70, quem estava no centro da roda era Wilson Simonal.O FILMESimonal — Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. Estreia prevista este mês.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Simonal no Jornal do Brasil

JB 27/04/2009

De volta aos verbetes:
Livros oferecem diferentes leituras sobre Wilson Simonal

Ricardo Schott, Jornal do Brasil

RIO - Artista que rivalizava em êxito com Roberto Carlos no fim dos anos 60, o cantor Wilson Simonal (1939-2000), homenageado com o filme Simonal: Ninguém sabe o duro que dei, de Claudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer (em cartaz no dia 15 de maio), mesmo com todo o sucesso, foi relegado a bem mais do que o ostracismo. Após a acusação de delatar artistas de esquerda – causada pelo fato de, em 1972, ter chamado amigos policiais do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para pressionar seu contador Rafael Viviani, a quem acusara de roubo – foi tirado dos verbetes sobre MPB, como se nunca tivesse existido. Trazê-lo de volta à literatura sobre música é o objetivo do jornalista Ricardo Alexandre, diretor de redação da revista Época e ex-editor da Bizz, e do historiador Gustavo Alonso Ferreira, que lançam em breve livros que relatam a trajetória do cantor.

Enquanto o jornalista lança a primeira biografia oficial de Simonal (ainda sem título, a ser lançada no segundo semestre pela editora Globo), Ferreira assina Simonal: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga (Record), fruto de uma tese de doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense, previsto para junho. Uma tarefa aprazível para ambos, fãs de Simonal, mas nem por isso menos trabalhosa, porque envolve um personagem cujas esferas pessoal, musical e política se entrelaçam. E que ainda suscita grandes dúvidas a serem respondidas.

– No livro, forneço matéria-prima para o leitor entender se Simonal foi ou não delator – afirma Alexandre, que entrevistou o cantor em 1998 e cuidou da produção editorial da caixa Wilson Simonal na Odeon (EMI, 2003), que revê a discografia do ídolo dos anos 60 e 70. – Progredi muito em relação ao texto que acompanhou a caixa. Ouvi mais de 60 pessoas. Durante a carreira, ele teve turmas e subturmas diferentes. Só no caso do contrato que ele fez com a Shell em 1968 (que envolvia propagandas e patrocínios de turnês) havia diversas pessoas, no Brasil e no exterior. Fui atrás do presidente da Shell na época e dos publicitários que se envolveram com ele.

Boatos sobre bombas

Apesar do lado político ser importante, Alexandre diz que é impossível deixar o que aconteceu com Simonal restrito a isso.

– É uma história que tem várias leituras. Tem a questão do racismo, o fato de ele ter sido um cara sem condições para gerir a própria carreira, algo que veio de suas origens. – lembra. – Simonal era um cara sem estrutura familiar, teve poucas pessoas para orientá-lo e estava sozinho na época que foi acusado, sem banda e trocando de gravadora.
Ferreira, por sua vez, tencionou chegar a um resultado que lembra o fio condutor de Roberto Carlos em detalhes, de Paulo César de Araújo. Seu objetivo é contar a história da MPB dos anos 60 e 70 por intermédio da trajetória de Simonal – um cantor que, antes mesmo de ganhar a pecha de dedo duro, já não contava com a simpatia das esquerdas. Em 1969, diz o autor, Simonal teria mandado uma carta ao Dops pedindo reforço policial para seu espetáculo De Cabral a Simonal. Justificou o pedido alegando ter ouvido boatos a respeito de bombas em seus shows.

– Existe o fato de ele ter sido um dos artífices de um tipo de música chamada pilantragem, movimento cujos participantes não se viam como tal, talvez por vergonha. E Simonal fazia música alegre em tempos de ditadura, ironizava os universitários e os sambistas que faziam música batendo em caixas de fósforos. Alegava que estes não sabiam fazer música para o povo – observa o autor. – Aquela época se prestava a distorções, ainda não resolvidas. Hoje fala-se que o Simonal era adesista. Mesmo os artistas exilados passaram por esse tipo de acusação. O Chico Buarque lançou em 1968 a música Bom tempo. Os tropicalistas também eram mal-vistos pelas esquerdas.

Os baianos, por sinal, foram envolvidos em boatos relacionados a Simonal, conforme lembra o filho do cantor, Wilson Simoninha.

– Falavam que o Simonal tinha entregue o Caetano e o Gil aos militares. Um absurdo, porque o próprio Caetano dava entrevistas negando isso – recorda Simoninha, que colaborou bastante com os autores. – O importante é que são livros detalhados e não são chapa-branca. É a chance de rever a história da ditadura.

Ligação tropicalista

Alexandre acrescenta que não havia um fosso entre o cantor de Sá Marina e os tropicalistas exilados.

– O título de Alegria, alegria, primeiro sucesso do Caetano, foi tirado de uma expressão criada por Simonal. Em Parque industrial, de Tom Zé, lançada em Tropicália (disco-manifesto de 1968), Gilberto Gil fala “vamos voltar à pilantragem”. Na época dos tropicalistas, Simonal já era sucesso. Ele era como a Ivete Sangalo hoje e os baianos, como o Vanguart – brinca.

Na biografia, Alexandre aproveita para destruir velhos mitos, como o de que Simonal teria sido processado por sequestro, após o entrevero com o ex-contador.

– Ele foi preso, mas não se configurou sequestro porque não tentou tirar dinheiro de ninguém. O processo partiu do estado, já que Simonal usou um órgão do governo para resolver um problema dele – relata. – Viviani foi levado para o Dops e torturado. Não se admitia a tortura, mas o expediente era visto como um mal necessário, desde que justificado por interesses de segurança nacional. Não era o caso.

O racismo não é ponto pacífico entre os autores. Alexandre acredita que, se Simonal fosse branco, talvez seu destino fosse outro. Ferreira prefere deixar o tema de lado.
– A MPB já está repleta desse discurso de “vítimas do sistema”, que às vezes até legitima projetos estéticos – defende o historiador, que prefere concentrar-se na força do artista. – Numa entrevista que ele deu ao Pasquim, bem antes da acusação, ele foi atacado pelos entrevistadores e se defendeu de tudo. Vários artistas não tomavam a mesma atitude. Ivan Lins, por exemplo, foi literalmente insultado por eles numa entrevista.

Alexandre crê que muito do que aconteceu a Simonal veio do preconceito racial.

– Aqui, é como se fosse permitido ao negro circular no mesmo ambiente dos brancos, desde que soubesse seu lugar. E a postura de Simonal, que namorava loiras e desfilava com carrões, incomodava – explica o autor, sem esconder a idolatria. – Simonal foi o maior cantor que o Brasil já teve, em termos de voz, de exploração de palco. Tudo o que relacionamos a um grande cantor, ele tinha mais do que todos.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Simonal na toca dos leões

Reproduzo a entrevista de Simonal ao jornal O Pasquim num de seus primeiros numeros. Como notou Daniel Aarão Reis, meu professor, trata-se de uma das poucas entrevistas d'O Pasquim em que o entrevistado não fica encurralado pelos maliciosos entrevistadores. O tom geral das entrevistas deste jornal na época era cercar e debochar do entrevistado. Eles tentam fazer isso com Simonal, mas ele devolve na mesma moeda, a começar pela parte que chama O Pasquim de pilantra! Confira a entrevista na integra! Simonal fala de Nelson Cavaquinho (de quem debocha) ao muro de Berlin! Imperdivel!


Entrevista de Wilson Simonal a´O Pasquim

O Pasquim (jul 1969), nº 4
Fonte: Biblioteca Nacional, RJ.

Simonal: “não sou racista” (Simonal conta tudo)

Sérgio Cabral: O domínio do público é uma coisa instintiva em você. È claro que há toda uma técnica mas, enfim, é fabricado ou espontâneo?

Simonal: Na verdade, eu não magnetizo ninguém. O público é que se magnetiza por si mesmo.

Jaguar: Impressionante é que tudo que você faz no palco dá sorte. Quando o Armando Marques desmunheca, milhares de pessoas gritam “bicha, bicha”. Quando você desmunheca, milhares de pessoas aplaudem você histericamente. Qual é o segredo?

Simonal: É porque nunca constou, nunca se comentou e nunca se duvidou da minha característica de homem macho. Por isso que eles não me chamam de bicha.

Jaguar: Maísa disse que a pilantragem não existe. Compra essa, Simonal.

Simonal: Não, a pilantragem existe. E, inclusive, a pilantragem primordial da Maísa é quando ela picha as pessoas que são realmente muito famosas. É uma maneira de fazer pilantragem. Pilantragem é, por exemplo este jornal de vocês. É um jornal pilantra, que usa a pilantragem inteligente. Quando uma revista famosa coloca o retrato do artista mais famoso na capa, é para vender revista, entende? Então, eu uso as coisas que aprendi com toda a minha experiência de cantor, de crooner, no sentido de pilantragem musical. E eu não me envergonho de dizer, porque eu disse realmente que é pilantragem e acredito que o público goste da minha pilantragem. O segredo do sucesso da minha pilantragem é que ela não é pretensiosa.

Tarso de Castro: E esse grupo da pilantragem que tem aí, você acha que já morreu ou o que aconteceu com eles?

Simonal: Na verdade eu não tenho acompanhado. Mas, de qualquer maneira, eu quero dizer que agradeço a eles a promoção que eles me fizeram.

Sergio Cabral: Eu me lembro que houve uma época em que só você falava em pilantragem. Depois surgiu este grupo da pilantragem e o Nonato Buzar, meu amigo, que passou a ser o rei da pilantragem em disputa com o Carlos Imperial. Então um seria o rei da pilantragem, outro o imperador. E você seria o quê nesse caso?

Simonal: Eu seria apenas o Todo Onipontente da pilantragem.Sérgio Cabral: Onde você estava há dez anos atrás? Simonal: Em 1959 eu estava no Exército. Era cabo datilógrafo.

Sérgio Cabral: Como foi que você iniciou sua vida profissional, quando foi crooner de Salles e tal?

Simonal: Foi. Eu iniciei profissionalmente como crooner da boite Drink.

Sérgio Cabral: Quem foi que te encaminhou, houve algum padrinho, alguma pessoa nessa história?

Simonal: Houve. Quem praticamente forçou a maior barra comigo, inclusive me levou para fazer testes nas companhias gravadoras, foi o Carlos Imperial. Maluco, chegou ao cúmulo de um dia dar uma festa na casa dele e dizer: “vou apresentar pra vocês o maior cantor do Brasil”. Então foi todo mundo lá na casa do Imperial para ver quem era, e era eu. Adivinha se foi aquele mau parado, quiseram bater nele e tudo.

Tarso de Castro: E hoje você acha que é o maior cantor do Brasil?
Simonal: O melhor, não, mas eu sou um dos melhores.

Tarso de Castro: Quais são os outros?

Simonal: Os outros, atuantes, eu diria... vocês vão morrer de rir, o Altemar Dutra. É que eu tenho um conceito muito diferente: eu não julgo o bom cantor pelo repertório que ele canta, mas sim pelo que ele pode fazer com a voz. Então, Altemar Dutra, Agnaldo Timóteo, Cauby Peixoto, Agostinho dos Santos, Lúcio Alves... puxa tem tanta gente, deixa eu ver...

Tarso de Castro: O que você acha do Jair Rodrigues?

Simonal: Acho um ótimo sambista. Não é cantor, ele é sambista. Cantor não canta samba; ou se é sambista, ou se é cantor.Sérgio Cabral: Você me dá idéia que a influência que você teve inicialmente de cantores brasileiro, foi de Lúcio Alves e Dick Farney. Confirma isto ou não?Simonal: Realmente, eu me esqueci inclusive de citar o nome de Dick Farney que eu reputo como um dos grandes cantores brasileiros. Embora eu não saiba explicar o porquê da minha tendência pelo gosto moderno, me lembro que diziam que eu era influenciado e eu passei a observar. E o Lúcio Alves na fase de bossa nova foi um sujeito muito importante. Foi ele que me apresentou a Menescal, Elizeth Cardoso, Silvinha Telles. Eu acredito que de uma forma inconsciente eles devem ter influído na minha forma de cantar.

Sérgio Cabral: O Jaguar está dizendo que não tem a menor idéia do que faria se vinte mil pessoas urrassem seu nome no Maracanãzinho. Possivelmente ficaria estourando de máscara. Você, depois daquela consagração, não perdeu para sempre a sua pureza?

Simonal: Não, porque na verdade eu sempre fui, não digo puro, mas em relação à minha profissão eu sempre fui direito. Eu nunca me rodeei de frescuras e pode parecer até um pouco engraçado, cabotino, mas eu não me envergonho de dizer que eu sabia que o público ia cantar comigo. Eu não fui lá desprevenido, eu sabia. Já estou acostumado ao público me aplaudir e empolgar-se com a minha pilantragem. Mas o que aconteceu no Maracanãzinho foi que o público não se empolgou, o público se emocionou.

Tarso de Castro: Você acha que este esquema de pilantragem que você aplica hoje tem um duração longa?

Simonal: Este esquema, eu pensei honestamente, já estava ultrapassado. Há muito tempo que eu não fazia isto. Porque o artista brasileiro tem o defeito de se renovar, porque as coisas no Brasil acontecem muito rapidamente, então nós nos renovamos praticamente de seis em seis meses. Entretanto, a experiência tem-me ensinado que esta renovação tem que ser um pouco demorada. Eu acredito que um dia a pilantragem vai passar, mas tem que aparecer uma coisa melhor em termos de comunicação popular.

Tarso de Castro: Você foi ao Maracanãzinho para “jantar” o Sergio Mendes?

Simonal: Não. Eu sabia que ia ser aplaudido, mas não sabia que ia acontecer aquilo, eu realmente não esperava. Eu esperava ser aplaudido e sabia, pelo que estava esquematizado, que eu ia fazer a escada para o Sérgio Mendes, ia deixar o público num tal ponto de desinibição e alegria, que quando o Sérgio Mendes chegasse então, aconteceria a grande consagração a favor dele. Eu explico, não sei se estou certo, mas gostaria de explicar o porquê daquele fenômeno: o brasileiro é muito bairrista e sentimental, ao mesmo tempo em que indisciplinado, sabe? Então, a soma destas coisas reflete o seguinte: eu não soube em tempo algum de nenhum artista brasileiro que fizesse sucesso no exterior e que voltasse ao Brasil e fosse consagrado em termos populares. Ele é consagrado em pequenos recintos. É o caso de Elis Regina, por exemplo, que fez sucesso no Olympia e quando voltou ao Brasil não aconteceu nada. O próprio Roberto Carlos,no auge da sua carreira, ganhou e festival de San Remo. Forçaram aquela barra e tal, mas não aconteceu nada, porque quando o público descobriu que ele estava cantando em italiano, ficou meio chateado. Eu acredito que aquele negócio do Maracanãzinho foi que o carioca quis me mostrar o seguinte: é que eu estou afastado do Rio, praticamente, há uns três anos. Eu venho aqui, faço um mês de teatro e volto pra São Paulo. O meu programa de televisão era gravado em São Paulo. O sucesso que eu fazia no Brasil era reflexo do que eu fazia em São Paulo. Entretanto, todas as vezes que eu vinha ao Rio de Janeiro o carioca me aplaudia. Mas na verdade eu estava morando em São Paulo. Como foi divulgada a intenção do Sérgio Mendes de me levar para os Estado Unidos, eu acredito que naquele momento o público queria dizer: “olha, deixa de frescura, sem essa de ir para os Estado Unidos, fica um pouco mais aqui no Rio, se o problema é bater palmas, nós também sabemos bater, nós também sabemos aplaudir”. Sabe, eu acho que o público quis mostrar um pouco do carinho que ele sentia, querendo me mostrar uma coisa que eu não estava sabendo que tinha.

Tarso de Castro: Quer dizer que com isto fica afastada a hipótese de você sair daqui, pelo menos breve?

Simonal: Não, não é que eu não saia. O que foi divulgado é que eu iria para os Estados Unidos definitivamente, faturar em dólares, morar em Beverly Hills, porque o sujeito já fica imaginando isto. Todo mundo pensa que se eu for para lá, em sei meses vai acontecer o que eu sou no Brasil, mas eu não sou louco de ir assim. Eu posso ir, arriscar um disco, se colar colou, se não colar, tchau, até logo. Tanto que o Sérgio Mendes quis me contratar por 3 anos e eu não concordei. Eu disse que faria um disco e que se fizesse sucesso lá, eu daria opção para o próximo LP de gravar na etiqueta dele. Porque afinal de contas eles iam investir um capital na minha promoção, mas não que eu fosse definitivamente para os Estados Unidos, eu não conheço a filosofia do povo americano, não sei do que eles gostam.

Sérgio Cabral: Você esteve na Itália e eu me lembro que a imprensa italiana elogiou você, até como um novo rei da bossa-nova, novo João Gilberto. Você naquela época não teve intenção de ir para a Europa?

Simonal: Se eu fosse naquela época, ia me machucar, porque eu não tinha a experiência que eu tenho agora. E o que houve foi que o sujeito escreveu... sabe o que é, eu não me engano, quando o sujeito me elogia ou quando me picha, eu observo por que ele está me elogiando ou me pichando. Este sujeito que realmente me elogiou, ocupando uma página inteira daquela revista que é famosa lá, a OGGI, ele era cantor, Paolo Cupinei, era na verdade... como é o nome dele artístico, esteve aqui no Brasil... é, acho que é Gino Paolo. Então, como era cantor sentiu as minhas dificuldades de comunicação com o povo italiano e na medida que ele viu que eu consegui aquilo, ficou empolgado, mas porque ele era também artista. Todo sujeito, todo crítico que tem uma certa tendência artística, entende o negócio por um outro aspecto, outro lado. Então, eu acredito que foi meio nessa que ele deu esta força, ficou meio empolgado.

Pinheiro Guimarães: Se você fosse para os Estados Unidos, entraria para que turma?

Simonal: Eu acho que quem faz um gênero de pilantragem parecido co a que eu faço é exatamente o Herp Albert, o Chris Montez, Trini Lopes, estão mais ou menos dentro desse espírito. Mas lá é diferente, lá funciona muito o negócio de sub, quer dizer, nos Estados Unidos sempre existiu um buraco para o cantor ou artista latino. Não é de hoej que temos ai Xavier Cugal e milhões de artistas, agora mesmo o José Feliciano. Então, no sul dos Estados Unidos, por exemplo, com muita penetração da rapaziada do sub, eles dão aquela colher, deixam um cara meio sub fazer sucesso, mas é um sucesso muito passageiro. Eu acredito que se eu for para lá agora, e gravar um disco na AM Records, que é a fábrica das novidades, eu posso até fazer sucesso, mas por dois anos e depois não faço nunca mais.

Sérgio Cabral: Eu me lembro que no início, o pessoal da chamada crítica te esnobava e tal e você fazia sucesso e não dava bola para eles, até que passou a ser reconhecido por todos eles. Te importava esta crítica?

Simonal: Me importava, eu apenas não me deixava influenciar pelo que a crítica dizia, porque dentro do ponto de vista deles, naquela ocasião, eu acredito até que eles estivessem certos. Agora, não era o que eu estava tentando, porque o meu problema, acho que o grande problema da música brasileira foi o problema da comunicação. A música brasileira só se comunica com o povo no Carnaval. Fora dele a música brasileira praticamente não existe. O povo brasileiro esnoba a música brasileira. Era preciso, então, fazer um tipo de música que se comunicasse e depois, nós sempre fomos muito influenciados harmonicamente e por outras coisas. O artista americano sempre foi considerado. Se alguém quiser comparar o Silvio Caldas, que é o nosso papa aqui, com o Sinatra, todo mundo vai dizer que o Sinatra é melhor. Este tipo de condicionamento sempre atrapalhou a divulgação da música brasileira. E o que acontecia é que os críticos ficavam um pouco irritados com este condicionamento e eram, as vezes, até ásperos na maneira de se expressar. Quando você, que escreve sobre música, diz que o disco dos Beatles é ruim, o cara que está lendo a sua crítica e tem o disco em casa, está sendo chamado de burro, por tabela. Então acontece que ele passa a não dar importância ao que você escreve, pensa: “Esse cara é um chato, um bolha”.

Pinheiro Guimarães: E o que você acha que tem de mais bacana: beleza, bossa, voz, idéia?

Simonal: Eu tenho muito charme.

Sérgio Cabral: O que você acha do Sérgio Mendes?

Simonal: Para mim ele é um pilantra. Para vocês verem até que ponto vai a pilantragem do Sergio Mendes, é que como ele sabia da dificuldade da música brasileira fazer sucesso no exterior porque o tipo de samba tradicional não faz sucesso pela dificuldade de execução, porque o americano é prático e o que acontece é que música é escrita, então você escreve as notas, a divisão. Agora, no samba, há muito tempo desde que iniciada a música no Brasil, você escreve de um jeito e toca de outro. Mas isso funciona para brasileiro, que sabe o que é samba, que está acostumado a tocar desde criança. O músico estrangeiro não sabe, então ele toca o que está escrito e não dá certo e ele não entende como que os caras lá no Brasil e aqui eles tocam e não dá certo. Simplesmente porque é tão difícil escrever samba, qualquer maestro diz isto que se convencionou escrever daquela maneira antiga, que ainda hoje se usa. Se você ouvir uma gravação de samba em qualquer estúdio é comum o maestro dizer: “olha aqui, na letra h é aquela, morou? balançar... aqui na letra f vai naquela e tal”. Então quando vai a partitura para o músico estrangeiro tocar, não tem “é esta, é aquela, eles não têm o negócio de jeitinho, tocam o que está escrito e fica aquele samba parecido com rumba. E que, na realidade, está escrito, um samba parecido com rumba.

Sérgio Cabral: Eu me lembro quando o Ary Barroso foi convidado para ir aos Estados Unidos, ele queria levar um baterista e um contrabaixo brasileiro e não foi aceito por isto.

Simonal: Exatamente. Então, o negócio do Sergio Mendes ele fez um tipo de música moderna e com ritmo sofisticado, este ritmo que vocês da crítica chamam de alienado, o que realmente facilitou o americano a entender. Agora, a grande pilantragem dele foi a seguinte: a música brasileira era curiosa. Mas se cantar em português uma música o americano acha engraçado, duas já começou a encher. Na terceira ele pede um uísque, pergunta a cotação da bolsa, já fica um papo diferente. O Sérgio Mendes, então cantava uns pedaços em inglês e misturava o português. Mas é muito mais fácil para o americano que quer cantar em português, cantar com sotaque do que sem sotaque. E o que ele fez? Botou duas americanas no conjunto que cantavam em português com sotaque o que facilitou o problema do americano que resolve cantar junto.

Sérgio Cabral: Eu digo os nomes e você dá notas de um a dez. Vamos começar com Chico Buarque.

Simonal: Eu daria dez em letra e quatro em música. Acho a maioria das música do Chico muito ruins.

Sérgio Cabral: Caetano Veloso.

Simonal: O Caetano merece uma explicação, pela Tropicália, que é um tipo de pilantragem. Eu conheço e gravei músicas do Caetano, sensacionais, fora desta linha linha misteriosa que ele andou fazendo. Na verdade, ele aproveitou o tumulto, a insatisfação geral, a depressão da juventude e optou pelo negócio da pilantragem, que parece não ter dado muito certo. Mas eu daria a ele dez como letrista e cinco como músico.

Sérgio Cabral: E Gilberto Gil?

Simonal: Dez como letrista e nove como musicista.

Sérgio Cabral: Roberto Carlos?

Simonal: Já faz outro gênero, uma música com maior poder de comunicação. É o que nós, da música moderna, chamamos de música quadrada. Para ele eu tenho que abrir um parêntese: pelo meu gosto musical eu daria três para ele, como compositor. Mas se estabelecermos o problema da comunicação, que também é válido, e o Roberto Carlos é o compositor brasileiro que mais fez músicas comunicativas, eu nunca vi um sujeito fazer música água com açúcar de tanto poder comunicativo. Então, como compositor, eu daria três, mas pelo poder de comunicação ele é hors-concours.

Sérgio Cabral: E Noel Rosa?

Simonal: Eu conheço muita coisa ruim dele. Eu acredito que na sua época, ele foi um Chico Buarque, eu não sei, mas ele poderia até ser considerado um Caetano Veloso na época, porque ele fez umas músicas realmente muito diferentes das músicas que se faziam naquele tempo. Como eu não conheço a maioria das coisas do Noel Rosa, eu não dou nota.

Sérgio Cabral: Ary Barroso?

Simonal: Compositor razoável. Foi muito idolatrado mas ele não chegava a ser sensacional.

Sérgio Cabral: Dorival Caymmi?

Simonal: Esse é quente. Eu daria dez em música e dez em letra. Ele tem umas músicas cafoninhas, comerciais, mas ele é sensacional. Faz bem música, tem bom gosto harmônico, tem melodia bonita e faz verdadeiras poesias. Eu daria vinte.

Jaguar: Você conhece o Nelson Cavaquinho? Que tal?

Simonal: Conheço, é sensacional. Como músico, pelo simples. Isto dele tocar o instrumento cavaquinho, que é pobre harmonicamente, faz com que ele mesmo, muitas vezes estrague suas melodias. O Nelson Cavaquinho é um compositor em potencial, ele sente uma música, mas não dá para fazer o que quer fazer, porque se o Nelson Cavaquinho fosse Nelson Pianinho, seria sensacional. Como letrista, dentro daquela simplicidade, eu daria quinze.

Jaguar: Qual o melhor compositor do Brasil?

Simonal: Não existe o melhor. Existe tanta gente boa. Tem um compositor, por exemplo, que eu nunca gravei música dele, chama-se Hemínio Belo de Carvalho; nunca gravei porque eu estou numa outra linha, mas é o tipo do compositor sensacional. E eu nunca gravei, porque não gravo disco para receber elogio, eu gravo disco para vender. Uso a minha arte no sentido comercial. O dia em que eu ficar rico, muito rico, aí sim eu vou me dar o luxo de fazer disco artístico, mas por enquanto ainda não. E assim como Hermínio, existe muita gente boa. O Billy Blanco, o Ataulfo Alves, tanta gente bacana que não existe o melhor.

Sérgio Cabral: E a melhor cantora brasileira?

Simonal: A maior também não existe. Existem grandes cantoras. Eu faço questão de dizer que existem grandes cantores brasileiros, porque uma das piores línguas que existem para cantar é a língua portuguesa, porque não é sonora, é uma língua dura, uma língua feia. E a grande maioria dos compositores brasileiros fazem músicas que dificultam a interpretação. E para a mulher ainda é mais difícil cantar na língua portuguesa do que para o homem. Então, quando encontramos uma Elizeth Cardoso, quando ouvimos uma Elis Regina, uma Claudette Soares, uma Maysa, é um negócio que a gente tem que tirar o chapéu, o que elas fazem com a voz, cantando em português, que é dificílimo... Cantar em inglês é fácil, italiano é mole. Você vê todo calouro, em geral, canta música americana ou italiana, porque é mais fácil. Cantar em português já é mais difícil. Nós temos realmente grandes cantoras. Elza Soares é uma cantora excelente...

Sérgio Cabral: Você gosta da Gal Costa?
Simonal: Ela não é uma grande cantora. A Gal Costa é uma figura, funciona mais como uma peça de um movimento, como cantora ainda é muito imatura. Eu acredito que não poderá ser uma grande cantora. Mas, eu falei em Elizeth Cardoso e se falasse que a Gal Costa é uma grande cantora, eu seria um cafajeste.

Sérgio Cabral: E Nara Leão?

Simonal: A Nara canta mal. E dizer que alguém canta mal, não desmerece o valor. Nara canta mal com todas as menininhas grãfininhas da Zona Sul e da Zona Norte que se identificam com Nara. O grande segredo de Nara é que ela sempre escolhe bem o repertório. Deve ser a cantora brasileira que melhor escolhe repertório. Acho que nem a Elizeth, com a prática que tem, escolhe tão bem quanto Nara. Ela só vai na mosca. Porque é fogo, fazer sucesso, cantando mal do jeito que Nara canta, o segredo dela está no repertório, isso sem falar no seu charme, no seu joelho que é sensacional etc.

Tarso de Castro: Você gosta de Nara Leão, é amigo dela?

Simonal: Sou muito amigo dela, mas nem por isso vou dizer que ela canta bem. Ela sabe que canta mal, tanto é que ela está estudando canto até hoje, e se continuar cantando deve continuar estudando.

Tarso de Castro: Você falou agora nas menininhas da alta sociedade. O que você acha desse pessoal.

Simonal: Eu acho engraçado. Tem certo tipo de frescura que eu acho bacana. A Teresa Souza Campos, por exemplo, é uma figura, uma mulher que sempre foi idolatrada. Eu a conheci quando eu era crooner do Drink, depois eu fui para o Top Club, então a Teresa foi a grande mulher invejada, eu acho bacana... E hoje ela é uma senhora e consegue manter aquela elegância. Tem gente até que diz que o gênero de beleza dela está ultrapassado; eu não acho, acho que ela está sensacional, porque ela é uma senhora, não é mais uma menina. Entretanto, é uma senhora com todo aquele charme, toda aquela exuberância, dá pra gente paquerar tranqüilo, é uma boneca.

Tarso de Castro: Quem é que você escolhe como gênio: Garrincha ou Pelé?

Simonal: O Pelé, porque...

Pinheiro Guimarães: Você é racista?

Simonal: Não,eu não sou racista, minha mulher é loura, sou vidrado em loura, em olho verde, olho azul e não é necessidade de afirmação, eu acho engraçado, é realmente sensacional... Aliás eu gosto muito de mulher bonita, minha mulher também sabe disso e inclusive me prestigia. Quando eu paquero mulher feia ela diz que o meu gosto está mudando e ainda me gora. Mas o Pelé foi mais inteligente, porque gênio é em todos os sentidos...

Jaguar: Como é que você encara o preconceito racial no Brasil?

Simonal: Acho meio frescura, mas no duro ele existe. E, antigamente, quando eu andava empolgado com a esquerda festiva, não me envergonho de dizer que já estive meio nessa, sabe como é: a gente vai estudando, fica com banca de inteligente e pensando que é o tal, achando que muita coisa estava errada, que tinha que mudar muita coisa...

Tarso de Castro: Hoje você não acha mais que tenha muita coisa errada?

Simonal: Eu acho que ainda tem, só que eu não entendo o porquê que as coisas estão erradas e quando eu vou discutir não agrido mais as pessoas, eu procuro propor o meu ponto de vista... E então, por que existe racismo? Eu me lembro que quando estava no colégio, eu estudava que a raça negra era inferior, que o branco era mais bonito, era superior etc. Era no livro Meu Tesouro. Muita gente estudou neste livro e eu, como moleque crioulinho, li isto lá. Quando eu canto o charme e a beleza negros, não é que eu seja racista, é apenas para provar para a maioria destes crioulinhos idiotas, que em vez de estudarem ficam aí na marginalizando, que enquanto existirem esses conceitos e o condicionamento do povo em relação à beleza branca e sua superioridade, este negócio vai existir,vai demorar um pouco para mudar. Mas para mudar não é com poder negro, pantera negra e outras frescuras, muda é com educação e o negro mostrando que tem capacidade de se impor. O negro tem que estudar, tem que se virar. Antigamente eu me lembro que só porque eu cantava de paletó e gravata, tropical inglês, arriscando um charme, eu era antipático. Hoje, entretanto, todo mundo acha que eu sou charmoso, é porque se acostumaram. E qualquer crioulo que forçar a barra, que provar que sabe fazer as coisas direito, ter uma vida honesta sem prejudicar ninguém, até o belga louro de olho cor-de-rosa vai achar aquele crioulo sensacional. Vê se alguém fala mal do Pelé, ou do Jair Rodrigues. O negro tem que se impor. Vai encontrar certas dificuldades mas tem que levar a sério, estudar, se especializar, para poder aparecer.

Tarso de Castro: A imagem pública que se tem de você é a do cara que está tranqüilo e que tem mordomo que acorda você às duas da tarde, com caviar etc. Qual é a sua rotina diária real?

Simonal: Eu não me daria nunca com esta jogada de mordomo porque eu não fui acostumada a isto. Caviar eu acho engraçado, mas o que eu gosto mesmo é de tutu com feijão, ovo mexido, bife na manteiga etc. Claro que quando eu vou numa festa frescura, black-tie, strogonof e tal, a gente prestigia... Hoje eu só bebo uísque escocês porque eu aprendi que é melhor do que o nacional, não dá dor de cabeça, o fígado não se transforma em patê com tanta rapidez, então a gente homenageia sob os auspícios da Escócia. Mas tem certas frescuras que eu não fui muito acostumado, então não dou importância. Claro que eu posso ter conforto. Se minha mãe pode ter empregada, se minha mulher não precisa ir para o fogão e para o tanque de lavar roupa, eu pago uma empregada por problema de comodidade e não porque queira botar banca. E quando faço isto, estou ajudando uma pessoa pobre a ganhar dinheiro. O maior sarro que eu tiro do meu sucesso é que eu sei que tem um número muito grande de gente que trabalha comigo que está ganhando dinheiro. É o garçom da boite, é o bilheteiro, é ocara que vende meu disco, é o proprietário da boite. Aliás, o proprietário da boite não digo, porque este já está bem, está tranqüilo, é dono da metade da Lagoa [Rodriogo de Freitas, no Rio de Janeiro], está homenageando a mulher de Ipanema e adjacências... Na verdade, depois que eu comecei a fazer sucesso o meu empresário, por exemplo, mudou o padrão de vida, já comprou a sua casinha, tem a sua caranga conversível americana. O malandro do secretário estava a pé e já tem seu fusquinha e tal, já está todo mundo montadinho, usando uma roupinha melhor, com algum no banco já estão até pagando imposto de renda.

Tarso de Castro: E a sua rotina mesmo, qual é?

Simonal: Eu sou muito preguiçoso e não é de agora. Tive problemas no colégio e no Exército por causa disso. Já na época eu não gostava de levantar cedo, queria dormir até tarde e agora que eu estou mais ou menos na base da colher-de-sopa, eu gosto de levantar lá pelo meio-dia, uma hora da tarde. Como uma vez por dia, sei lá, não tenho muita rotina. Só me modifico um pouco quando tenho que trabalhar, ensaios, viagens etc. Fora disto, passeio, vou ao cinema, brinco com meus filhos, vou à casa de minha mãe, bato papo com os meus amigos...

Sérgio Cabral: Quantos filhos você tem?

Simonal: Embora eu seja casa há seis anos, só tenho dois, porque tenho em casa um projetor de filmes e um aparelho de televisão que nós usamos, entende...

Pinheiro Guimarães: Você usa muita gíria, estes termos que de uma certa maneira mascaram os sentimentos. Você acha que esta nova maneira de falar funciona em termos de não perder a personalidade da coisa?

Simonal: Funciona. Eu sempre fui a favor da gíria porque acho que ela tem um grande poder de comunicação, ela desinibe e se existisse uma gíria internacional eu acho que nem haveria guerra que é um negócio mal parado, acho burrice. E em contra-senso no mundo de hoje em que o americano esta mandando homem para a Lua. E estão mandando mesmo, porque a gente vê na televisão. Não é filme, os malandros estão lá mesmo. Os russos a gente não sabe se já estão lá... O negócio é que a gíria facilitaria os entendimentos e as conversações. Hoje a propaganda é toda calcada em cima de bolações e quantas vezes até os textos são em gírias populares. Agora a guerra é um outro papo na base do... é outra jogada.

Sérgio Cabral: Problema comercial, você acha?

Simonal: É que está todo mundo a fim de levantar algum... As grandes potências ainda esta naquela de inveja, do que o fulano tem e eu não tenho, em vez de fazerem um intercâmbio de valores, ficam nesta bobagem...

Tarso de Castro: Mas esta bobagem alimentou a indústria alemã, por exemplo, e fez a Segunda Guerra Mundial e o nazismo, não foi?

Simonal: Pois é. E foi um prejuízo para o mundo todo. A Alemanha ainda hoje está dividida, metade do lado de cá, metade do lado de lá. É um povo oprimido, povo triste, uma chatice. Eu estive na Alemanha e a alegria que lá existe é falso bêbados... E como o turismo lá está muito desenvolvido, eles são tão cretinos que promoveram até aquele muro, então as pessoas vão lá para ver se foge ou se morre alguém, vejam a morbidez humana como é...

Tarso de Castro: E o que você achou do muro?
Simonal: Frescura, precisava aquele muro? É que as leis deles são tão cascatas que tem onegócio do Muro, deve estar ruim de um lado e de outro, então o pessoal esta se mandando. Vai por mim que por trás daquele muro o pessoal está levando uma grana. No fim do mês tem um acerto de contas, é promoção.

Jaguar: Você que um cara pra frente, já fumou maconha?
Simonal: Fumei uma vez para ver como é que era. Mas eu não gosto nem de cigarro. O que eu acho é que em toda universidade os alunos deviam fumar maconha, para acabar com a frescura e com o mito. Porque fazem muita onda, não é nada disto que a turma está falando, há muito folclore, horrível, tem gosto de mato (fim da linha ilegível). Eu fumei uma vez e não senti nada porque não sei nem fumar cigarro comum, devo ter fumado mal.

Tarso de Castro: O que você acha dos festivais de música?

Simonal: Festival é um grande cascata que existe.(resto da resposta está ilegível)
Pinheiro Guimarães: E de onde vem nome Wilson Simonal?

Simonal: Meu nome é Wilson Simonal de Castro.Pinheiro Guimarães: E de onde vem Simonal?

Simonal: Isso é um mistério, isto é de onde vem o Simonal eu sei. Em todos os lugares a que chegou procuro logo Simonal na lista telefônica, mas até agora não encontrei nenhum. É um nome judeu. Mas, quando nasci, o medico que atendeu minha mãe chamava-se Simonard. Judeu francês, sabe? Minha mãe teve uma gestação muito complicada. Era muito trabalhadeira, uma cozinheira de mão cheia. Ia para a cozinha e ficava íntima do pessoal do hospital e o médico disse a ela: “Quando nascer, quero que a criança tenha meu sobrenome”. Então ela decidiu que eu me chamaria Roberto Simonard de Castro. Mas meu pai, mineiro, achou Roberto nome de velho e mudou para Wilson. Na hora de registrar em cartório, com aquele sotaque mineiro, acabou saindo Simonal.

Sérgio Cabral: Quando você cobra por show em clube?

Simonal: Nove milhões de cruzeiros velhos.Jaguar: Qual a marca de seu carro?Simonal: Uma “mercedezinha”, mas isso todo mundo tem.Sérgio Cabral: Onde você nasceu?Simonal: Nasci na avenida Presidente Vargas, mas fui criado no Leblon, numa favelinha que tinha ali. Era uma favela bacaninha, tinha só 17 barracos, com TV, água encanada e tudo.

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